Lula critica ‘segundo escalão’ dos EUA após tarifaço e diz que diálogo com Trump é ‘civilizado’, mas ações contrariam conversas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou neste domingo (23) que as conversas com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, são sempre “civilizadas e muito respeitosas”, mas, depois, “o segundo escalão toma atitudes impensáveis”. A declaração foi dada durante entrevista à TV Record, gravada no Palácio da Alvorada nesta manhã, e ocorre em meio à escalada comercial entre os dois países, após os EUA imporem tarifas sobre produtos brasileiros com base em investigações do USTR.

“Eu não sei se é o governo americano, se é o Trump ou se é a assessoria do Trump. Eu, às vezes, tenho a impressão que o Trump é bem melhor na relação política do que a assessoria. Eu disse para ele: ‘Não é possível. Nós conversamos, tudo vai bem'”, disse Lula. “A minha conversa com o Trump é muito civilizada, é muito respeitosa, tanto da minha parte quanto da parte dele. Mas, depois, o segundo escalão toma atitudes que são impensáveis. Aí nós não podemos aceitar intromissão de um país, quem quer que seja, na coisa do Brasil.”

Ligação entre presidentes e negociações em andamento

Lula telefonou para Trump na manhã desta sexta-feira (21). A conversa durou cerca de 1 hora e 20 minutos e teve tom “amistoso e cordial”, segundo o Palácio do Planalto. Na ligação, Lula afirmou que as alegações norte-americanas para a recente imposição de tarifas contra produtos brasileiros são “infundadas”. As novas barreiras comerciais haviam sido determinadas com base em investigações conduzidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).

Durante a entrevista deste domingo, Lula afirmou que disse a Trump que as bases pelas quais o governo norte-americano impôs novas sanções ao Brasil “são mentirosas”. “Temos o menor desmatamento da história do Brasil. E eu nasci na minha vida política combatendo trabalho escravo. Portanto eu não posso admitir que alguém possa dizer que vai culpar o Brasil porque o Brasil compra produto que de país que tem trabalho escravo, eu não posso fiscalizar os outros países. No fundo no fundo ele estava se referindo à China, na verdade é isso. Eu conversei muito sinceramente com ele e foi uma conversa boa porque no mesmo dia ele ligou para o secretário de Comércio dele, que ligou para o meu ministro de Indústria e Comércio e que já marcaram uma reunião para a próxima semana.”

Após a ligação entre Lula e Trump, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Elias Rosa, confirmou ao blog da Julia Duailibi que Brasil e Estados Unidos devem retomar, nesta semana, as negociações técnicas sobre o tarifaço americano e o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, entrou em contato com ele logo após a conversa de sexta-feira para propor uma reunião. “Já deu fruto [a conversa com Trump] e espero que seja fruto bem gostoso e saboroso porque eu quero manter uma relação”, completou Lula.

Panorama político e econômico

O episódio evidencia a complexidade das relações bilaterais entre Brasil e EUA, marcadas por tensões comerciais e pela busca de diálogo em alto nível. Enquanto Lula busca preservar a parceria histórica e evitar retaliações que prejudiquem a economia brasileira, o governo Trump adota medidas protecionistas que afetam setores como o aço, o alumínio e o agronegócio. A retomada das negociações técnicas é vista como um passo positivo, mas analistas alertam que o clima de incerteza deve persistir até que haja um acordo concreto. A fala de Lula também reflete a preocupação do governo brasileiro em defender sua soberania e sua imagem internacional, especialmente em temas como meio ambiente e direitos trabalhistas, que foram citados nas justificativas americanas para as tarifas.

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