A professora Monique Medeiros, mãe do menino Henry Borel, de 4 anos, deixou na tarde desta quinta-feira (4) o presídio feminino Talavera Bruce, no Complexo Penitenciário de Gericinó, no Rio de Janeiro, após receber o perdão judicial concedido pela juíza Elizabeth Louro, do 2º Tribunal do Júri. A decisão, que desclassificou o crime de homicídio doloso atribuído a Monique, gerou reação imediata do Ministério Público do Rio de Janeiro, que anunciou recurso contra a sentença, prometendo levar o caso às instâncias superiores.
A saída de Monique ocorre em meio a um cenário de forte comoção pública e pressão de movimentos de defesa dos direitos das crianças. O Conselho de Sentença do 2º Tribunal do Júri entendeu que não havia provas suficientes para caracterizar dolo no comportamento da ré, optando pela desclassificação para homicídio culposo ou outro crime de menor gravidade. A juíza Elizabeth Louro acolheu a tese da defesa e aplicou o perdão judicial, medida prevista no Código Penal para casos em que a pena é considerada extinta por circunstâncias atenuantes.
Reações e recurso do Ministério Público
O Ministério Público do Rio de Janeiro, por meio de nota oficial, classificou a decisão como “equivocada e contrária às provas dos autos”, anunciando que recorrerá ao Tribunal de Justiça do estado. A promotoria sustenta que Monique Medeiros teve participação ativa na morte do filho, ocorrida em março de 2021, e que a desclassificação do crime não reflete a gravidade dos fatos. O recurso deve ser analisado pela 2ª Câmara Criminal, que poderá reverter o perdão ou manter a decisão de primeira instância.
O caso de Henry Borel, que também envolve o ex-vereador Jairinho (condenado a 43 anos de prisão), expôs fragilidades no sistema de proteção infantil e gerou debates sobre a responsabilidade de adultos próximos em situações de violência doméstica. Organizações como o Conselho Tutelar e o Instituto Brasileiro de Direito de Família criticaram a soltura, apontando que ela pode enfraquecer o combate à impunidade em crimes contra crianças.
Panorama político e jurídico
A decisão judicial ocorre em um contexto de crescente atenção pública a casos de violência infantil, com o Congresso Nacional discutindo projetos de lei que endurecem penas para homicídios de menores. Parlamentares de diferentes espectros políticos, como a deputada Erika Kokay (PT-DF) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), manifestaram-se sobre o caso, embora com posições divergentes: enquanto Kokay defendeu a necessidade de revisão do sistema de justiça, Bolsonaro criticou a atuação do Judiciário, classificando a soltura como “um erro”.
O desfecho do caso Monique Medeiros também reacende o debate sobre o uso do perdão judicial em crimes de alta repercussão. Especialistas em direito penal, como o advogado Antonio Carlos de Almeida Castro (Kakay), apontam que a medida é excepcional e deve ser aplicada apenas quando há circunstâncias que justifiquem a extinção da punibilidade, como arrependimento ou colaboração. No entanto, a defesa de Monique alega que ela já cumpriu parte da pena e que o perdão foi baseado em sua conduta processual.
Enquanto o recurso do MP tramita, Monique Medeiros deverá cumprir medidas cautelares, como uso de tornozeleira eletrônica e proibição de se aproximar de familiares da vítima. A decisão final, que pode levar meses, será acompanhada de perto pela opinião pública e por entidades de defesa dos direitos humanos, que veem no caso um teste para a credibilidade do sistema judiciário brasileiro.
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