A morte do ator britânico e neozelandês Sam Neill, nesta segunda-feira (13), voltou a inundar a internet com imagens e vídeos criados por inteligência artificial para retratar o ator após a morte. Conhecido por interpretar o paleontólogo Alan Grant na franquia “Jurassic Park”, o ator foi “recriado” como um fantasma entre dinossauros ou chegando aos portões do parque em meio às nuvens. O mesmo ocorreu em maio, após a morte do fisiculturista Gabriel Ganley, aos 22 anos, com vídeos mostrando sua “chegada ao céu” em uma “academia nas nuvens”. Essas “homenagens” reacenderam o debate sobre a manipulação da imagem de pessoas mortas e os limites do uso da IA, fenômeno batizado de “necromancia digital”.
A “necromancia” é popularmente conhecida como a prática de se comunicar com os mortos ou invocar seus espíritos. A versão digital descreve o ato de manipular vozes, imagens e traços de personalidade de pessoas falecidas para gerar conteúdos produzidos com IA. A tendência é cercada de controvérsias, pois o conteúdo feito por IA pode transformar o luto em um produto e criar “fantoches digitais” de pessoas que não podem mais se defender. É o que explica Elaine Kasket, professora de psicologia da Universidade de Bath, no Reino Unido, e autora do livro “All the Ghosts in the Machine: The Digital Afterlife of Your Personal Data” (“Todos os fantasmas na máquina: a vida após a morte digital dos seus dados pessoais”, em tradução livre).
Popularização das ferramentas de IA amplia alcance
A grande novidade é que a criação dos avatares deixou de depender de pessoas com conhecimento técnico avançado. Hoje em dia, a criação dos chamados “grief bots”, ou “robôs de luto”, tornou-se mais comum com a popularização das ferramentas de IA. Plataformas como ChatGPT e Claude, por exemplo, podem ser usadas para transformar os “restos digitais” — mensagens, áudios e vídeos de uma pessoa falecida — em avatares. Esse uso indiscriminado de ferramentas para “reviver” personalidades também pode distorcer a memória dessas pessoas. Essa é a reclamação de Flávia Christina, filha de Pelé. Recentemente, ela criticou vídeos desse tipo e afirmou ficar desconfortável com imagens do pai: “não são atitudes normais dele”.
O assunto talvez chamasse menos atenção quando era usado com mais parcimônia ou quando não havia alternativa. Em Hollywood, dublês e computação gráfica foram usados para concluir as cenas do ator Paul Walker em “Velozes e Furiosos 7”, lançado em 2015. No ano seguinte, a franquia “Star Wars” também recriou digitalmente o ator Peter Cushing em “Rogue One”. Agora, com a IA generativa acessível a qualquer pessoa, o fenômeno ganha nova dimensão, levantando questões éticas sobre consentimento póstumo, direitos de imagem e o impacto psicológico sobre os enlutados. A necromancia digital, portanto, não é apenas uma tendência tecnológica, mas um campo de disputa entre inovação, memória e respeito aos falecidos.
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