Pesquisa Datafolha revela que 59% dos brasileiros apoiam classificação de PCC e CV como terroristas, mas 74% rejeitam intervenção dos EUA

Uma pesquisa do Datafolha, divulgada nesta quinta-feira (26), revela que 59% dos brasileiros defendem a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, medida já adotada pelos Estados Unidos. No entanto, o levantamento também mostra que 74% dos entrevistados rejeitam qualquer tipo de ingerência ou intervenção norte-americana em solo nacional, evidenciando um forte sentimento de soberania entre a população.

O estudo, encomendado por veículos de imprensa e realizado entre os dias 20 e 24 de junho, ouviu 2.016 eleitores em 130 municípios brasileiros. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Os dados indicam que, embora a maioria apoie a medida externa, há uma clara distinção entre endossar a ação dos EUA e aceitar qualquer forma de interferência estrangeira no Brasil.

Apoio à classificação e rejeição à intervenção

Segundo o Datafolha, 59% dos entrevistados concordam que o PCC e o CV sejam tratados como grupos terroristas, alinhando-se à decisão do governo norte-americano, que incluiu as duas facções em sua lista de organizações terroristas estrangeiras em fevereiro deste ano. A medida americana permite o congelamento de ativos e a imposição de sanções financeiras contra integrantes e aliados dos grupos. No entanto, 74% dos brasileiros se opõem a qualquer tipo de intervenção dos EUA no país, mesmo que para combater o crime organizado. Apenas 22% dos entrevistados se mostraram favoráveis a uma eventual atuação direta norte-americana.

O levantamento também revela divisões regionais e políticas. No Nordeste, o apoio à classificação como terroristas é de 62%, enquanto no Sudeste cai para 57%. Entre eleitores que se identificam com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, 55% apoiam a medida, contra 65% entre os que se opõem ao atual governo. A rejeição à intervenção estrangeira é mais homogênea: ultrapassa 70% em todas as regiões e faixas etárias.

Panorama político e econômico

A pesquisa ocorre em meio a um intenso debate no Congresso Nacional e no Palácio do Planalto sobre os impactos da classificação feita pelos EUA. O governo brasileiro, por meio do Ministério da Fazenda, avalia os riscos econômicos da medida, especialmente para setores como o financeiro e o de comércio exterior, que podem sofrer sanções indiretas. O Planalto minimizou o impacto imediato, mas admitiu preocupações com possíveis efeitos na economia, conforme noticiado pelo portal República do Povo.

Enquanto isso, a oposição pressiona por uma resposta mais dura, incluindo a adoção de legislação antiterrorismo no Brasil. O Senado Federal já discute projetos de lei que tipificam como terrorismo as ações de organizações criminosas, mas o governo resiste, temendo que a medida possa ser usada para criminalizar movimentos sociais. A classificação dos EUA também ampliou a pressão sobre o Brasil, expondo divergências políticas entre os poderes e entre diferentes espectros ideológicos.

Especialistas em segurança pública ouvidos pelo Datafolha apontam que a rejeição à intervenção estrangeira reflete um histórico de desconfiança em relação a ações unilaterais de potências estrangeiras na América Latina. “O brasileiro apoia medidas contra o crime, mas não aceita que outros países ditem regras dentro de casa”, afirmou o cientista político Carlos Melo, do Insper. A pesquisa também indica que 68% dos entrevistados acreditam que o Brasil deveria ter sua própria lista de organizações terroristas, independente da classificação dos EUA.

O levantamento do Datafolha reforça o cenário de complexidade que envolve a segurança pública no Brasil, onde o combate ao crime organizado esbarra em questões de soberania e em diferentes visões políticas sobre como enfrentar o problema. A pesquisa completa está disponível no site do instituto.

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