Durante 38 anos, as mulheres brasileiras foram legalmente impedidas de jogar futebol, uma proibição que só terminou em 1979, no auge da ditadura militar. A medida, instituída pelo Decreto-Lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941, durante o governo de Getúlio Vargas, estabelecia que as mulheres não poderiam praticar esportes ‘incompatíveis com as condições de sua natureza’. O futebol foi enquadrado nessa categoria, ao lado de lutas e levantamento de peso, e a proibição perdurou por quase quatro décadas, refletindo uma visão conservadora e patriarcal que marcou a política brasileira da época.
A proibição foi reforçada em 1965, já sob o regime militar, por meio do Conselho Nacional de Desportos (CND), que editou a Deliberação nº 7, de 1965, reiterando a ilegalidade da prática feminina do futebol. A medida atingia não apenas jogos oficiais, mas também partidas amadoras e treinos em clubes, escolas e espaços públicos. O argumento oficial era de que o futebol poderia prejudicar a saúde reprodutiva das mulheres e desviá-las de seu papel social tradicional de mães e donas de casa.
Contexto histórico e político
A proibição do futebol feminino no Brasil não foi um fato isolado, mas parte de um conjunto de políticas de controle social e de gênero que marcaram o período. Durante o Estado Novo (1937-1945) e, posteriormente, durante a ditadura militar (1964-1985), o governo utilizou o esporte como ferramenta de propaganda e de afirmação de valores tradicionais. Enquanto o futebol masculino era incentivado como símbolo de nacionalidade e virilidade, o feminino era reprimido como ameaça à ordem moral.
Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou o Ano Internacional da Mulher, o que gerou pressões internacionais por igualdade de gênero. No Brasil, movimentos feministas começaram a ganhar força, e a questão do futebol feminino tornou-se um símbolo da luta contra a discriminação. Em 1979, o CND, sob a presidência de Manoel Gomes Tubino, revogou a deliberação de 1965, permitindo novamente a prática do futebol por mulheres, mas com restrições: elas não podiam jogar em estádios com mais de 10 mil pessoas e precisavam de autorização médica. Essas limitações só foram totalmente eliminadas em 1983.
Impactos e legado
A proibição de 38 anos deixou marcas profundas no futebol feminino brasileiro. Enquanto países como Estados Unidos, Alemanha e Suécia desenvolviam ligas e seleções femininas desde a década de 1970, o Brasil só começou a estruturar a modalidade tardiamente. A primeira partida oficial da seleção brasileira feminina ocorreu apenas em 1988, e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) só passou a dar apoio efetivo ao futebol feminino a partir dos anos 2000.
Atualmente, o Brasil é uma potência no futebol feminino, com jogadoras como Marta e Formiga reconhecidas mundialmente, mas o legado da proibição ainda é sentido na falta de investimento, na desigualdade salarial e no preconceito estrutural. Dados da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) indicam que, em 2023, apenas 15% dos clubes profissionais brasileiros mantinham times femininos, e a média salarial das jogadoras era 60% inferior à dos homens.
A história da proibição do futebol feminino no Brasil é um capítulo emblemático da luta das mulheres por direitos e igualdade. Ela mostra como o esporte, muitas vezes visto como apolítico, pode ser um campo de disputa ideológica e de afirmação de valores democráticos. A revogação da proibição em 1979 foi uma vitória, mas a batalha por equidade no futebol e na sociedade brasileira continua.
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