O reality show criado pela influenciadora Viih Tube e pelo ex-BBB Eliezer, que colocou funcionários da casa do casal em situações de confinamento e competição, tornou-se alvo de investigação do Ministério Público do Trabalho (MPT). A polêmica ganhou novos contornos após a divulgação de falas de funcionárias que participaram do programa, nas quais relatam constrangimento, pressão psicológica e jornadas exaustivas. O caso reacende o debate sobre os limites do entretenimento digital e a exploração de vínculos trabalhistas disfarçados de conteúdo.

De acordo com informações apuradas pela reportagem, o MPT instaurou procedimento para apurar se o formato do reality viola normas trabalhistas, como a jornada de trabalho, o descanso semanal e a dignidade do trabalhador. A investigação ocorre após denúncias anônimas e relatos de ex-funcionários que apontam para a criação de um ambiente de trabalho hostil, com tarefas degradantes e exposição pública não consentida. O programa, transmitido nas redes sociais do casal, consistia em desafios diários que envolviam desde limpeza de ambientes até provas de resistência física, com prêmios em dinheiro para os vencedores.

Funcionárias expõem bastidores e reação de Viih Tube

Em meio à repercussão, Viih Tube reagiu publicamente às falas de duas funcionárias que participaram do reality. Em vídeo publicado em suas redes, a influenciadora afirmou que o programa foi uma “brincadeira entre amigos” e que todos os participantes assinaram termos de consentimento. No entanto, as ex-funcionárias, em entrevistas a veículos de imprensa, contradisseram a versão, afirmando que foram coagidas a participar sob ameaça de demissão e que não tiveram acesso a informações claras sobre os riscos e a duração do confinamento. Uma delas declarou: “Era humilhante. A gente tinha que fazer tarefas ridículas enquanto eles riam. Eu me senti um animal de circo.”

O caso ganhou contornos ainda mais graves quando se descobriu que o reality foi gravado durante o horário de expediente das funcionárias, sem que houvesse compensação financeira adicional ou descanso adequado. Especialistas em direito trabalhista ouvidos pela reportagem apontam que a situação configura, em tese, assédio moral e violação do artigo 483 da CLT, que trata da rescisão indireta do contrato de trabalho por falta grave do empregador. O MPT também investiga se houve desvio de função e se o programa caracteriza trabalho análogo à escravidão, devido à privação de liberdade e à submissão a condições degradantes.

Panorama político e social: o debate sobre trabalho e entretenimento

O episódio ocorre em um contexto de crescente fiscalização do trabalho em plataformas digitais e de influenciadores. Nos últimos meses, o Ministério Público do Trabalho intensificou ações contra empresas que utilizam funcionários em conteúdos virais sem respeitar direitos básicos, como o caso de uma rede de fast-food que obrigava jovens a dançar para câmeras durante o expediente. A situação também ecoa denúncias de ex-funcionários de grandes youtubers e streamers, que relatam jornadas exaustivas, salários abaixo do mercado e ausência de registro em carteira.

Parlamentares da Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados já sinalizaram que devem convocar audiência pública para discutir a regulamentação do trabalho de influenciadores e a responsabilidade de plataformas digitais. O deputado Rogério Correia (PT-MG), que integra a comissão, afirmou em nota: “Não podemos permitir que o entretenimento se torne uma cortina de fumaça para a exploração. O trabalhador não pode ser tratado como mercadoria descartável em nome de likes e views.” A Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH) também se manifestou, recomendando que empresas e influenciadores evitem qualquer formato que exponha funcionários a situações vexatórias ou que comprometa sua saúde mental.

Enquanto a investigação do MPT segue em sigilo, Viih Tube e Eliezer suspenderam temporariamente o reality e afirmaram que estão colaborando com as autoridades. A defesa do casal, em nota, negou qualquer irregularidade e disse que o programa “sempre respeitou a legislação trabalhista e os direitos dos participantes”. No entanto, o caso já provocou uma onda de críticas nas redes sociais, com hashtags como #RespeitoAoFuncionário e #RealityDoMal ganhando força. A expectativa é que o MPT conclua a investigação nos próximos 60 dias, podendo aplicar multas que variam de R$ 10 mil a R$ 500 mil por infração, além de exigir indenizações individuais para as vítimas.

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