O Senado Federal rejeitou, no fim do ano passado, a proposta de classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas, pleito defendido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) junto ao então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A decisão, tomada no Congresso Nacional, ocorreu sem resistência do próprio autor da proposta, que não articulou sua aprovação entre os pares. O episódio expõe as divisões no Legislativo sobre o tratamento jurídico e político dado às facções criminosas, que há décadas desafiam o Estado brasileiro com ações violentas e domínio territorial.
A discussão sobre o enquadramento do PCC e do CV como terroristas ganhou força após o senador Flávio Bolsonaro apresentar o pleito diretamente a Donald Trump, durante encontros bilaterais sobre segurança pública. A proposta, no entanto, não encontrou eco no Senado, onde foi rejeitada sem maiores debates ou resistência do autor. Fontes ouvidas pela reportagem indicam que a falta de consenso sobre a definição legal de terrorismo e o receio de que a medida pudesse gerar conflitos diplomáticos ou jurídicos foram determinantes para o arquivamento.
Impacto da rejeição
A rejeição da classificação como terroristas mantém o PCC e o CV sob o regime jurídico de organizações criminosas, conforme a Lei 12.850/2013, que prevê penas de 3 a 8 anos de reclusão para integrantes. Caso aprovada, a medida poderia abrir caminho para sanções internacionais, como bloqueio de ativos financeiros e restrições de viagem, além de permitir o uso de instrumentos de combate ao terrorismo, como a colaboração com agências estrangeiras. Especialistas em segurança pública apontam que a mudança poderia ter efeitos práticos limitados, já que as facções atuam predominantemente no território nacional e não se enquadram nos critérios clássicos de terrorismo, como motivação ideológica ou religiosa.
O episódio ocorre em um contexto de escalada da violência urbana e de disputas políticas sobre o papel do Estado no combate ao crime organizado. Enquanto setores mais conservadores defendem o endurecimento das penas e a ampliação do conceito de terrorismo, outros alertam para os riscos de se criminalizar movimentos sociais ou de se politizar o sistema de justiça. A ausência de resistência de Flávio Bolsonaro, que não se manifestou publicamente sobre o arquivamento, levanta questionamentos sobre a real prioridade da pauta para o senador e seu grupo político.
Panorama político
A rejeição da proposta no Senado reflete a complexidade do debate sobre segurança pública no Brasil, que envolve desde a atuação das forças policiais até a política de drogas e o sistema prisional. O PCC e o CV, que controlam presídios e comunidades em vários estados, são frequentemente associados a crimes como tráfico de drogas, homicídios e lavagem de dinheiro. A classificação como terroristas, embora simbólica, poderia alterar a forma como o Estado brasileiro e a comunidade internacional enxergam essas organizações, mas também geraria controvérsias sobre a aplicação de leis de exceção.
Para analistas políticos, a falta de articulação de Flávio Bolsonaro em torno da proposta indica que o tema foi usado mais como instrumento de projeção internacional do que como prioridade legislativa. O senador, que é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, tem buscado se posicionar como voz ativa na área de segurança, mas enfrenta resistências dentro do próprio partido e da base governista. A rejeição no Senado, sem resistência, sugere que a pauta não tinha força suficiente para avançar, mesmo com o apoio de Trump.
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