Super El Niño coloca setor elétrico em alerta e pode elevar tarifas para consumidores

O Brasil enfrenta um novo desafio no setor elétrico com a previsão de um Super El Niño de intensidade “muito forte”, que coloca em alerta os reservatórios das hidrelétricas e pode elevar o custo da tarifa de energia para os consumidores. Especialistas consultados descartam a possibilidade de racionamento, mas o fenômeno climático já reforça a expectativa de maior despacho de usinas termelétricas, mais caras e poluentes, e acende o alerta para a possível adoção de novas bandeiras tarifárias, que encarecem a conta de luz. A situação ocorre em um momento em que o país já registra um déficit primário de R$ 56,1 bilhões em maio, elevando a dívida pública ao maior patamar em cinco anos, conforme apontam dados do Tesouro Nacional.

O Super El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial, o que altera os padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do planeta. No Brasil, o fenômeno costuma provocar secas no Norte e Nordeste e chuvas intensas no Sul, impactando diretamente a geração de energia hidrelétrica, que responde por cerca de 60% da matriz elétrica nacional. Com a previsão de um evento “muito forte” para os próximos meses, os reservatórios das hidrelétricas das regiões Sudeste e Centro-Oeste, que concentram a maior capacidade de armazenamento, podem sofrer com a redução do volume de chuvas, aumentando a dependência de fontes mais caras, como as termelétricas a gás e carvão.

Impacto nas tarifas e no bolso do consumidor

A possibilidade de maior despacho de térmicas já acendeu o alerta para a bandeira tarifária, mecanismo que repassa aos consumidores os custos adicionais da geração de energia. Atualmente, a bandeira está verde, sem custo extra, mas a expectativa é de que, com a pressão sobre os reservatórios, a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) possa acionar bandeiras amarela ou vermelha nos próximos meses, elevando o valor da conta de luz. Especialistas do setor, como os do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), já monitoram a situação de perto, e o órgão ativou recentemente um plano emergencial inédito para conter o excesso de geração elétrica no país, em um movimento que reflete a complexidade do sistema.

O cenário é agravado pelo contexto fiscal do país. O déficit primário de R$ 56,1 bilhões registrado em maio, o maior para o mês em cinco anos, pressiona as contas públicas e limita a capacidade do governo de subsidiar tarifas ou investir em infraestrutura energética. A dívida pública bruta atingiu 78,2% do PIB, segundo o Banco Central, o que reduz a margem para medidas de alívio fiscal. A combinação de estresse hídrico com fragilidade fiscal pode levar a um aumento significativo nos custos de energia, impactando diretamente a inflação e o poder de compra das famílias brasileiras.

Panorama político e desafios do setor

O alerta do Super El Niño ocorre em meio a um debate político acirrado sobre a matriz energética e a transição para fontes renováveis. Enquanto o governo federal defende a ampliação de parques eólicos e solares, a dependência de hidrelétricas e térmicas ainda é elevada, especialmente em períodos de seca. A crise hídrica de 2021, que levou o país ao maior patamar de bandeira tarifária da história, ainda está na memória dos consumidores, e o temor de um novo choque de preços mobiliza tanto o setor produtivo quanto a sociedade civil.

Para além das questões climáticas, o setor elétrico enfrenta desafios estruturais, como a necessidade de modernização da rede de transmissão e a integração de fontes intermitentes. O plano emergencial do ONS para conter o excesso de geração, por exemplo, evidencia a dificuldade de equilibrar oferta e demanda em um sistema cada vez mais complexo. A expectativa é de que o governo anuncie medidas de curto prazo, como a contratação de térmicas adicionais e a flexibilização de regras ambientais para usinas hidrelétricas, mas sem um planejamento de longo prazo, o risco de novos aumentos tarifários permanece.

Enquanto isso, os consumidores já sentem os efeitos indiretos do fenômeno, com a alta nos preços de alimentos e combustíveis, que também são influenciados pelo clima. A combinação de Super El Niño, déficit fiscal e pressão inflacionária coloca o país em uma posição delicada, exigindo coordenação entre os poderes Executivo, Legislativo e os órgãos reguladores para evitar um colapso no setor elétrico e garantir a segurança energética da população.

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