O número de mortos pelos terremotos que atingiram a Venezuela subiu para 2.295 nesta quarta-feira (1º), segundo o governo do país, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta para um cenário de caos humanitário e risco iminente de epidemias. Especialistas afirmam que esse número representa uma subnotificação significativa, visto que mais corpos são retirados dos escombros diariamente e os necrotérios têm dificuldades para lidar com a grande quantidade de vítimas. A tragédia, que já dura quase uma semana, expõe a fragilidade de um sistema de saúde que opera além de sua capacidade e a lentidão da resposta oficial, contrastando com a mobilização de voluntários e equipes internacionais.
Organizações humanitárias alertaram na terça-feira (30) que o frágil sistema de saúde da Venezuela está sendo levado ao limite. Hospitais danificados e com falta de pessoal estão sobrecarregados por feridos e doenças infecciosas que se alastram na zona de desastre. Christian Lindmeier, porta-voz da OMS, afirmou em coletiva de imprensa em Genebra que o sistema de saúde venezuelano, já sobrecarregado por décadas de pouco investimento e anos de crise econômica, está “sob extrema pressão, com instalações operando além da capacidade para atender à crescente demanda por casos de trauma”.
Resgates em queda e crise humanitária se aprofunda
Enquanto isso, o número de resgates oficiais caiu drasticamente nos últimos três dias, segundo o governo, de 5.380 pessoas salvas nos dois primeiros dias após os terremotos para apenas quatro pessoas encontradas vivas na segunda-feira pelas autoridades. O período crucial para encontrar sobreviventes de terremotos é normalmente de 48 a 72 horas, mas é possível sobreviver por mais tempo, dependendo de fatores como temperatura e acesso a água ou comida. O único sobrevivente resgatado na terça-feira até o pôr-do-sol era uma criança que ficou presa por seis dias sob um prédio desabado, disse Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional.
Esses números não incluem os muitos resgates realizados em todo o país por grupos de voluntários que, frustrados com a resposta lenta do governo, se mobilizaram para salvar seus entes queridos presos dias antes da chegada de equipes internacionais especializadas. Entre os sobreviventes, uma crise humanitária se desenrola. Agências das Nações Unidas estimaram, na terça-feira, que o terremoto acumulou 1,2 milhão de toneladas de entulho, entre prédios destruídos e pertences pessoais. Elas expressaram preocupação com os efeitos na saúde de milhares de pessoas desabrigadas que dormem há dias ao relento ou em abrigos superlotados e insalubres.
Panorama político e social
A tragédia na Venezuela ocorre em um contexto de profunda crise política e econômica, que já havia debilitado as instituições do país. A lentidão na resposta governamental aos terremotos reacendeu críticas sobre a capacidade do Estado de lidar com emergências de grande escala, enquanto a mobilização de voluntários e a ajuda internacional destacam a resiliência da sociedade civil. O governo venezuelano, sob pressão, afirma que mais de 15.800 pessoas foram afetadas pelos terremotos — um número que reflete a quantidade oficial de deslocados, disse a porta-voz da agência da ONU para refugiados. A situação se agrava com a perspectiva de que o número de mortos possa aumentar significativamente, conforme alertam especialistas e organizações humanitárias.
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