Transposição do São Francisco chega ao RN: Túnel Major Sales é inaugurado após quase 180 anos de espera

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou nesta quarta-feira (2), na cidade de Luís Gomes, no Rio Grande do Norte, o Túnel Major Sales, que conecta as águas do São Francisco na Paraíba ao oeste potiguar. A obra, considerada o trecho mais complexo do ramal Apodi da transposição, tem 6,5 quilômetros de extensão e capacidade para transportar até 20 metros cúbicos de água por segundo. Em discurso, Lula afirmou que a chegada das águas ao estado é a realização de um sonho de retirantes que, ao longo de décadas, foram obrigados a migrar para o Sudeste fugindo da fome e da seca.

O presidente lembrou que a ideia de transpor as águas do São Francisco remonta ao período do Império, mais precisamente a 1846, mas que nenhum governante havia tentado executar o trabalho até que ele próprio decidisse iniciar as obras, em 2005. “De 1846 a 2005, nunca deixaram fazer essa obra. Mas também nunca se importaram com a quantidade de mães, pais e crianças que saíam da sua terra natal, iam tentar a sorte em São Paulo, Rio de Janeiro e que muitas vezes morriam sem conseguir realizar o sonho”, destacou.

Contexto histórico e político

A transposição do São Francisco é um dos maiores projetos de infraestrutura hídrica do Brasil, idealizado ainda no Império e retomado em diversos governos. O ramal Apodi, do qual o Túnel Major Sales faz parte, beneficia diretamente municípios do Rio Grande do Norte e da Paraíba, regiões historicamente castigadas pela seca. A obra enfrentou atrasos, questionamentos ambientais e disputas políticas ao longo de duas décadas, mas sua conclusão representa um marco para a segurança hídrica do semiárido nordestino.

Lula também criticou a omissão histórica dos governantes em relação ao drama dos retirantes: “Sempre disse que a seca é um fenômeno da natureza, que a gente não briga com a natureza. Mas a fome, por conta da seca, é falta de credibilidade, de caráter de quem governa o país ou os estados”. A fala ecoa o debate sobre a responsabilidade do Estado em mitigar os efeitos das mudanças climáticas e da desigualdade regional.

Impacto e próximos passos

Com a inauguração do túnel, a expectativa é que a água do São Francisco chegue a reservatórios e sistemas de abastecimento do oeste potiguar, beneficiando milhares de famílias e pequenos agricultores. A obra, no entanto, não encerra os desafios: a manutenção do fluxo hídrico depende de condições climáticas favoráveis e de investimentos contínuos em infraestrutura de distribuição. O governo federal sinalizou que novas etapas da transposição devem ser concluídas nos próximos anos, ampliando o alcance do projeto.

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