O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), admitiu a interlocutores ter viajado para Portugal em um jato particular de Daniel Vorcaro, a convite do senador Ciro Nogueira (PP-PI), e confirmou que o banqueiro pagou diárias de sua hospedagem em um hotel de luxo em Lisboa, conforme apontado pela Polícia Federal (PF). A declaração ocorreu após o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubar o sigilo de documentos enviados pela PF sobre o caso Vorcaro, parte do material produzido na Operação Compliance Zero, que investiga possíveis fraudes financeiras ligadas ao Banco Master.
Segundo a PF, a versão de Motta — de que Vorcaro teria bancado apenas duas diárias na capital portuguesa — difere dos dados obtidos pelos investigadores. O relatório da corporação aponta que o banqueiro pagou por cinco dias de hospedagem, e a conta da fatura menciona sete diárias. A discrepância levanta questionamentos sobre a transparência das relações entre agentes públicos e o setor financeiro, em um contexto de crescente escrutínio sobre o uso de recursos privados para custear viagens e estadias de autoridades.
Investigação da PF revela tratamento privilegiado
O documento da Polícia Federal menciona conversas entre Vorcaro e um auxiliar em que o então banqueiro afirma que precisaria de dois quartos em Lisboa para “Ciro e Hugo”. Ciro, no caso, é o senador Ciro Nogueira (PP-PI), a quem, segundo a PF, Vorcaro daria “tratamento privilegiado”, incluindo o pagamento de viagens internacionais, hospedagem e refeição em hotéis de luxo para o parlamentar. Poucos dias depois das conversas sobre Lisboa, o auxiliar de Vorcaro informa que haveria duas suítes no hotel Four Seasons. Durante a troca de mensagens, o auxiliar pede que Vorcaro informe “a lista dos homens”, ao que o banqueiro respondeu com uma lista de nomes que incluía Ciro Nogueira e Hugo Motta.
Os investigadores destacam que, na mesma conversa, Vorcaro enviou um áudio ao auxiliar pedindo cuidado com a privacidade e segurança. “Leo, preciso muito que você dê uma atenção na questão de segurança. Cidade está lotada, eu tive lá no lugar agora. Tive uma reunião lá no clube. Tem que ter certeza que o lugar em frente ao restaurante também esteja privatizado porque senão dá pra ver tudo lá dentro. Tem que ter alguém lá embaixo, quando você sai do elevador já dá para ver tudo, quem tá, o que está acontecendo”, diz Vorcaro no áudio. O auxiliar responde com “Ok.” A PF cruzou as informações das mensagens com documentos obtidos nos e-mails de Vorcaro, incluindo uma fatura que fazia menção a uma viagem realizada a Lisboa em junho de 2024 — para a PF, a mesma das mensagens.
O caso expõe um panorama político mais amplo, em que a proximidade entre figuras do alto escalão do Legislativo e banqueiros investigados por fraudes financeiras levanta suspeitas sobre a influência do poder econômico sobre decisões políticas. A Operação Compliance Zero, que já resultou em buscas e apreensões, mira esquemas de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio, e a revelação de que Vorcaro bancou despesas de parlamentares em viagens internacionais reforça a necessidade de maior regulação sobre o financiamento privado de atividades de agentes públicos. Enquanto isso, o STF e a PF seguem analisando os documentos, e novos desdobramentos podem surgir à medida que as investigações avançam.
Fonte: ver noticia original

