Vingança de ex-marido deixa mulher e filho autista cinco anos sem energia elétrica em SC

Uma mulher e seu filho autista viveram cinco anos sem energia elétrica em uma casa em Criciúma (SC), como consequência de uma vingança do ex-marido, que solicitou o desligamento da luz após ser obrigado a deixar o imóvel por medida protetiva. Durante esse período, a vítima tomava banho de caneca, aquecia água no fogão e dependia de vizinhos para guardar alimentos na geladeira e carregar o celular. O caso foi revelado pelo Ministério Público do Estado de Santa Catarina (MPSC) na quarta-feira (1º de julho de 2026), e a situação só foi resolvida em 18 de junho, após decisão judicial determinar o restabelecimento da energia elétrica.

A situação começou em 2021, quando a mulher sofreu violência doméstica e pediu uma medida protetiva contra o ex-marido, que determinou o afastamento dele do imóvel. Como vingança, o homem, que era o titular da unidade consumidora, solicitou o desligamento da luz da residência. Ele morreu um ano depois, mas a violência foi mantida pelos ex-sogros, que seguiram impedindo o religamento da rede, com a intenção de forçar a vítima a abandonar a casa onde construiu a família e viveu por mais de 20 anos.

Impacto na vida cotidiana e dependência de vizinhos

Sem energia, a mulher enfrentava calor intenso no verão apenas abrindo as janelas e aquecia água no fogão para tomar banho. Um vizinho, de acordo com a vítima, chegou a deixar uma extensão ligada para fora da janela para que ela pudesse carregar o celular e usar pequenos aparelhos elétricos. “Eu tomava banho em casa igual antigamente, de bacia. O vizinho me ajudou muito. Ele botou até uma extensão para botar bateria para recarregar celular. Eu tinha gaveta no freezer dele para botar carne”, relatou em vídeo divulgado pelo MPSC.

A mulher também dependia da ajuda de outros vizinhos para guardar alimentos na geladeira e usar equipamentos elétricos básicos. Ela contou que demorou a acreditar que voltaria a viver uma vida normal. “Parecia que era mentira. Quando a gente viu o caminhão ali, nem parecia verdade. Vieram minha mãe e minha irmã correndo, comemorando. A gente dizia: ‘Que bênção, que bênção’. Não tem explicação. Não desejo para ninguém passar por isso. Estou muito feliz”, disse.

Atuação do MPSC e decisão judicial

O caso chegou ao MPSC em maio de 2026, por meio da Promotoria de Justiça que trabalha com casos de violência doméstica. Havia uma ação penal que a mulher moveu contra os sogros por violência psicológica. Na primeira audiência, ela contou toda a situação. O órgão detalhou que o homem passou a impedir o acesso ao serviço essencial após a vítima pedir a medida protetiva. O nome da mulher não foi informado para preservá-la.

A decisão judicial que determinou o restabelecimento da energia elétrica foi cumprida em 18 de junho de 2026, encerrando cinco anos de sofrimento. O MPSC divulgou o caso na quarta-feira (1º de julho), destacando a gravidade da violência doméstica e a necessidade de proteção às vítimas.

Panorama político e social

O caso em Criciúma expõe uma realidade alarmante no Brasil: a violência doméstica que se estende para além do agressor, envolvendo familiares e impactando diretamente o acesso a serviços essenciais, como energia elétrica. A situação também revela a vulnerabilidade de vítimas que dependem de terceiros para sobreviver, especialmente quando o agressor controla a titularidade de contas de serviços públicos. A atuação do MPSC foi crucial para garantir o direito básico à moradia digna e à segurança, mas o caso levanta questionamentos sobre a eficácia das medidas protetivas e a necessidade de políticas públicas que impeçam a continuidade da violência após a separação.

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