O Instagram e o Facebook, redes sociais controladas pela Meta, abrigam páginas com poucos seguidores e sem responsáveis identificáveis que investiram ao menos R$ 1,3 milhão em anúncios de ataque ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, e ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que busca a reeleição. A revelação, publicada originalmente pela Folha de S.Paulo em 29 de junho de 2026, expõe um cenário de financiamento político opaco nas plataformas digitais, com potencial de influenciar o pleito de 2026 sem a devida transparência sobre a origem dos recursos.
As páginas, que somam menos de mil seguidores cada, veicularam anúncios com valores que chegam a centenas de milhares de reais, direcionados a públicos específicos nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. O conteúdo das peças publicitárias critica duramente a gestão de Tarcísio de Freitas à frente do governo paulista e associa Flávio Bolsonaro a escândalos de corrupção, como o caso das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A ausência de dados cadastrais completos — como CPF ou CNPJ dos responsáveis — viola as próprias diretrizes da Meta, que exige identificação para anúncios políticos, mas não impede a veiculação devido a lacunas na fiscalização automatizada.
Panorama político e impacto nas eleições
O episódio ocorre em um contexto de acirramento da disputa presidencial, com Flávio Bolsonaro consolidando sua pré-candidatura pelo PL e Tarcísio de Freitas tentando se reeleger em São Paulo, principal colégio eleitoral do país. Especialistas em direito eleitoral apontam que o uso de páginas anônimas para financiar ataques configura abuso de poder econômico e pode caracterizar propaganda irregular, sujeita a multas e até cassação de registros. A falta de transparência também alimenta suspeitas de que os recursos tenham origem em caixa dois ou em grupos políticos não declarados, o que pode distorcer o debate público e prejudicar a lisura do processo eleitoral.
Além disso, a Meta enfrenta pressão de órgãos reguladores, como o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que desde 2024 exige que plataformas mantenham um repositório público de anúncios políticos com dados dos anunciantes. No entanto, a empresa tem sido criticada por falhas na moderação e na verificação de identidade, permitindo que páginas com pouca atividade acumulem orçamentos milionários. Em nota, a Meta afirmou que investiga as contas e que removeu parte dos anúncios após a denúncia, mas não detalhou medidas para evitar reincidência.
O caso também reacende o debate sobre a regulação das redes sociais no Brasil. Projetos de lei em tramitação no Congresso, como o PL 2630/2020, propõem maior responsabilização das plataformas por conteúdos pagos e impulsionados, mas enfrentam resistência de setores que alegam censura. Enquanto isso, candidatos e partidos recorrem cada vez mais a anúncios digitais, que representaram mais de R$ 500 milhões em gastos nas eleições de 2024, segundo dados do TSE. A falta de controle sobre esses recursos, como demonstrado pelos R$ 1,3 milhão em anúncios anônimos, coloca em xeque a eficácia das regras atuais e a capacidade do sistema eleitoral de coibir distorções.
Para o eleitor, o cenário é de alerta: a desinformação e os ataques financiados por fontes ocultas podem influenciar a escolha nas urnas sem que se saiba quem está por trás. Organizações da sociedade civil, como a Transparência Eleitoral Brasil, já pedem que a Meta divulgue integralmente os dados dos anunciantes e que o TSE abra investigação sobre o caso. Até lá, as páginas anônimas seguem operando, enquanto o debate sobre o futuro da democracia digital no Brasil se intensifica.
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