O professor Luis Flávio Sapori, da PUC Minas e membro associado do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirmou que a classificação das facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos não intimidará os grupos criminosos nem aumentará a segurança da população brasileira. Em entrevista ao programa Conexão GloboNews, o especialista destacou que a medida, na prática, não terá efeitos imediatos e representa riscos à soberania nacional.
“Não vai mudar nada a curto prazo, a médio prazo. Essas organizações continuarão a fazer seus negócios escusos, lavagem de dinheiro, esse impedimento político, na verdade, é uma medida interna dos EUA, que tem objetivo de legalizar eventuais intervenções militares dos Estados Unidos nos países que abrigam essas organizações supostamente terroristas”, disse Sapori.
O especialista em segurança pública alertou que, além de não melhorar o enfrentamento ao crime organizado no Brasil, a medida coloca em risco a soberania nacional. “Na prática, essa medida não vai melhorar o enfrentamento ao crime organizado no Brasil, ela coloca em risco a soberania nacional. É uma forma de intervir na eleição brasileira, um segmento que quer fazer campanha eleitoral”, afirmou o professor.
Sapori também criticou a comparação entre o Brasil e o México, feita por aliados do ex-presidente Donald Trump. “Qual a ameaça que PCC e CV oferecem pros EUA? A cocaína daqui vai para a Europa, África e Ásia. O Fentanil [uma droga] que tanto ameaça os EUA tá entrando pelos cartéis mexicanos, não pelo Brasil”, declarou.
A declaração do especialista ocorre após informações do blog da Julia Duailibi, que apurou que, em conversa com Trump e aliados, o senador e pré-candidato à presidência Flávio Bolsonaro teria afirmado que o governo brasileiro, presidido por Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seria conivente com organizações criminosas e que essas facções mantêm conexões com grupos terroristas internacionais. Conforme a apuração, Trump teria reagido com surpresa, questionando se o Brasil ainda mantinha controle sobre seu próprio território. Em resposta, os participantes reconheceram a gravidade da situação e afirmaram que o problema seria ainda mais crítico do que o enfrentado pelo México.
“Isso não vai ajudar em nada, não vai fazer, não ajuda pq não é cooperação técnica com os estados unidos, para por exemplo frear a chegada de armas, porque muitas armas aqui no Brasil vem de lá”, finalizou Sapori.
Panorama político e riscos à soberania
A classificação de facções brasileiras como terroristas pelos EUA ocorre em um contexto de tensões diplomáticas e eleitorais. Especialistas apontam que a medida pode ser usada como justificativa para intervenções estrangeiras, além de influenciar o debate político interno. O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), teme que a decisão americana possa prejudicar o combate ao PCC e outras facções, ao criar obstáculos burocráticos e políticos.
A medida também levanta questionamentos sobre a eficácia de ações unilaterais no combate ao crime organizado transnacional. Enquanto os EUA endurecem o discurso, o Brasil enfrenta desafios internos, como o controle de fronteiras e o combate à lavagem de dinheiro. A falta de cooperação técnica efetiva, especialmente no controle de armas que abastecem o crime organizado brasileiro, é apontada como uma lacuna crítica.
Para Sapori, a classificação como terrorista não substitui políticas públicas de segurança e cooperação internacional. “Não vai mudar nada a curto prazo, a médio prazo. Essas organizações continuarão a fazer seus negócios escusos”, reiterou.
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