Classificação de PCC e CV como terroristas pelos EUA pode gerar efeito reverso e atingir aliados de Flávio Bolsonaro, alerta professor da UFMG

O pré-candidato à Presidência do Brasil, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pode sofrer um efeito reverso com a decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas internacionais. A avaliação é do professor de política internacional e comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dawisson Belém Lopes, que alerta para o risco de sanções financeiras atingirem políticos e empresários brasileiros, incluindo aliados do senador. A medida, anunciada dois dias após Flávio se encontrar com o presidente Donald Trump na Casa Branca e um dia após reunião com o secretário de Estado Marco Rubio, entra em vigor em 5 de junho e pode abrir caminho para intervenções militares dos EUA em território brasileiro, além de sanções a quem mantenha relações com as facções.

O professor Dawisson Belém Lopes afirma que ainda é cedo para estimar os impactos eleitorais da decisão, mas destaca que ela pode ser lida de diferentes formas pelos agentes políticos. “Qualquer previsão neste momento é imprecisa, porque é preciso entender como essa decisão será lida pela imprensa, por Flávio Bolsonaro, por Lula e por outros agentes políticos que influenciam o debate”, explica o especialista, que tem artigos e livros publicados sobre política externa ligada à América Latina e ao Brasil, escritos a partir de pesquisas em universidades na Alemanha, na Bélgica e na Índia.

Embora reconheça que Flávio Bolsonaro possa ganhar tração no tema da segurança pública – área na qual o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registrou sua pior avaliação em pesquisa Datafolha publicada há duas semanas –, Lopes avalia que Lula, mais experiente em debates, pode virar o jogo ao argumentar que a medida revela a incapacidade do adversário de lidar com problemas internos, a ponto de recorrer à ajuda externa. “Essa medida pode ser vista como entreguismo, algo contra o Brasil, não a favor, porque prevê uma renúncia de soberania”, analisa o professor.

A classificação das facções como terroristas pelos EUA, segundo Lopes, pode ter consequências diretas sobre políticos e empresários brasileiros. “Pode-se cogitar que a iniciativa vá alvejar pessoas ligadas à política, além de políticos profissionais”, alerta. As sanções financeiras previstas podem atingir não apenas membros das facções, mas também quem, mesmo sem saber, mantenha alguma relação com essas organizações. Isso inclui desde agentes públicos até investidores da Faria Lima, o centro financeiro de São Paulo, que podem ter negócios ou contatos com empresas suspeitas de ligação com o crime organizado.

Para estudiosos, facções como o PCC e o Comando Vermelho são criminosas, porque agem por interesses econômicos, sem qualquer motivação ideológica, diferentemente das organizações terroristas. Mas Trump tem contestado essa distinção, a exemplo do que também fez no México, com os cartéis, no ano passado. A decisão americana, portanto, representa uma mudança de paradigma no combate ao crime organizado, que pode ter implicações profundas na política brasileira.

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