A 11ª edição da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, realizada pelo DataSenado, traz um levantamento inédito sobre a realidade de mulheres transexuais e travestis no Brasil. O estudo revela que 56% das entrevistadas relataram ter passado por situações de agressões físicas, constrangimentos em espaços coletivos, discriminação no mercado de trabalho, problemas no atendimento em órgãos públicos e violência sexual. Os dados, divulgados nesta semana, reforçam um cenário de vulnerabilidade estrutural que atinge de forma desproporcional essa parcela da população, expondo falhas nas políticas de proteção e inclusão social.
O levantamento, que ouviu mulheres trans e travestis em todas as regiões do país, aponta que a violência não se restringe ao âmbito doméstico, mas se manifesta em diversos espaços da vida pública. Entre os relatos mais frequentes, destacam-se a dificuldade de acesso a serviços de saúde e assistência social, a recusa de atendimento em repartições públicas e a exclusão do mercado formal de trabalho. A pesquisa também identificou que 34% das entrevistadas sofreram violência sexual ao longo da vida, um índice que supera a média nacional entre mulheres cisgênero.
Panorama político e social
O estudo do DataSenado ocorre em um momento de intenso debate sobre direitos LGBTQIA+ no Congresso Nacional, onde tramitam projetos que tanto ampliam quanto restringem garantias a essa comunidade. Enquanto o governo federal, sob a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, tem sinalizado avanços com a criação de políticas específicas para a população trans, como o programa TransCidadania, a oposição parlamentar articula propostas que limitam o uso de banheiros públicos por pessoas trans e restringem o acesso a tratamentos de afirmação de gênero. A pesquisa, portanto, serve como um alerta para a urgência de ações concretas, já que os números indicam que a violência contra trans e travestis não é um fenômeno isolado, mas sim uma consequência de décadas de exclusão e preconceito institucionalizado.
Além dos dados quantitativos, o levantamento traz relatos qualitativos que ilustram a rotina de medo e discriminação. Uma das entrevistadas, identificada como Maria Clara, de 28 anos, contou que foi agredida verbalmente ao tentar usar um banheiro público em um shopping de São Paulo. Outra, Júlia, de 35 anos, disse ter perdido o emprego após ser descoberta como trans por colegas de trabalho. Esses casos, segundo a pesquisa, são representativos de um padrão que se repete em todo o Brasil, independentemente de classe social ou região.
O DataSenado destaca que a pesquisa é a primeira a incluir de forma específica mulheres trans e travestis em sua amostra, o que representa um avanço metodológico importante para a compreensão da violência de gênero no país. A coordenadora do estudo, Ana Paula Costa, afirmou que os resultados devem servir de base para a formulação de políticas públicas mais eficazes, que considerem as particularidades dessa população. “Não podemos mais tratar a violência contra a mulher como um fenômeno homogêneo. As trans e travestis enfrentam uma dupla ou tripla vulnerabilidade, que exige respostas específicas do Estado”, declarou.
Organizações de defesa dos direitos humanos, como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), já se manifestaram sobre os dados, cobrando ações imediatas do poder público. Em nota, a entidade classificou os números como “alarmantes” e pediu a aprovação de projetos de lei que criminalizem a discriminação por identidade de gênero em todo o território nacional. Atualmente, o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo, segundo relatórios internacionais, e a pesquisa do DataSenado reforça a necessidade de romper com esse ciclo de violência.
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