O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, integrante do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), afirmou nesta sexta-feira (29) que a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas já estava tomada desde o ano passado, aguardando apenas o aval do então presidente eleito Donald Trump. A declaração foi feita em entrevista ao programa Estúdio i, da GloboNews, e acende um alerta sobre os possíveis impactos na soberania brasileira e no compartilhamento de informações entre os dois países.
Segundo Gakiya, que atua há mais de duas décadas no combate ao PCC em São Paulo e em todo o país, a medida estava pronta desde o final de 2024. “Conversando com policiais do FBI no final do ano passado, na minha opinião, a medida estava pronta. Inclusive, ela só não foi publicada porque dependia da palavra final do Trump, mas, pelo que eu sei de toda a equipe, já era uma decisão. E já estava tomada praticamente desde o ano passado”, declarou.
Encontros com assessores do governo americano
O promotor revelou que se reuniu com assessores do governo dos Estados Unidos em 2025, incluindo representantes do secretário de Estado Marco Rubio. Durante esses encontros, Gakiya foi ouvido para fornecer informações sobre as facções brasileiras. “Vieram ouvir as autoridades brasileiras, colher informações in loco para eles tomarem decisões que seriam tomadas nos EUA. Eu fui ouvido, não por policiais do FBI, mas por assessores do secretário Marco Rubio”, afirmou.
Na ocasião, Gakiya destacou que o PCC e o CV são organizações criminosas de tipo mafioso, com ações violentas e dominação territorial, mas sem objetivo político ou ideológico. “Eu mencionei a eles que o PCC é uma organização criminosa do tipo mafiosa, que até tem ações, assim como Comando Vermelho, que se assemelha muito ao terrorismo, são extremamente violentos, têm dominação territorial, mas que eles não têm objetivo político nem ideológico, o objetivo é meramente econômico. O que me disseram na época é o seguinte: não estamos aqui para ouvir o governo brasileiro, estamos aqui para colher informações, levar ao secretário e ao presidente que tomará a decisão dele”, completou.
Repercussão política e encontro de Flávio Bolsonaro com Marco Rubio
A decisão dos EUA foi anunciada na quinta-feira (28), dois dias após o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com o secretário de Estado americano, Marco Rubio. Segundo o parlamentar, Rubio se mostrou favorável à classificação das facções brasileiras como organizações terroristas. O episódio reacendeu o debate sobre a influência de políticos brasileiros em decisões internacionais e gerou críticas de setores do governo Lula, que veem na medida uma possível ingerência na soberania nacional.
Impactos na soberania e na troca de informações
Para Gakiya, a classificação das facções como terroristas pode prejudicar a cooperação entre Brasil e Estados Unidos no combate ao crime organizado. “Pode haver um prejuízo para troca de informações que hoje mantemos com muita facilidade, porque a classificação das informações poderia passar a ser classificadas como confidencial ou mesmo secreta”, explicou. O promotor também alertou que, com a classificação, o assunto deixa de ser tratado como questão policial e passa a ser encarado como defesa nacional norte-americana, envolvendo agências como a CIA, as Forças Armadas e o FBI. “Quando o Departamento de Estado americano classifica como terrorista, o que acontece é o assunto é tratado como defesa nacional norte-americana, não é mais um assunto de polícia, portanto, há intervenção da CIA, das Forças Armadas e do FBI”, completou.
A medida dos EUA ocorre em meio a um cenário político conturbado no Brasil, onde o governo Lula enfrenta pressões de diferentes setores sobre segurança pública e relações internacionais. Enquanto aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro comemoram a decisão como um passo importante no combate ao crime organizado, críticos apontam riscos à soberania e à autonomia brasileira na condução de investigações. O tema promete dominar os debates no Congresso e nas esferas diplomáticas nos próximos dias.
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