O volume de crédito direcionado — financiamentos com juros menores, prazos longos e subsídios públicos — voltou a crescer no terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), após queda na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Dados do Banco Central (BC) mostram que essa expansão tem pressionado a taxa básica de juros, a Selic, atualmente em 14,5% ao ano, o segundo maior juro real do mundo. O próprio BC reconhece que o aumento do crédito direcionado e as incertezas sobre a dívida pública elevam a taxa de juros neutra da economia, comprometendo a eficácia da política monetária e encarecendo o combate à inflação.
O crédito direcionado é regulado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) e inclui linhas como financiamento imobiliário, crédito rural, operações do BNDES e programas com garantia pública, como o Pronampe e o FGI. Esses empréstimos têm taxas médias de 9,3% ao ano, enquanto o crédito livre — sem subsídios — chega a 38,8% ao ano, segundo a série histórica do BC iniciada em março de 2011. A diferença expressiva reflete os subsídios governamentais, fontes de recursos mais baratas e garantias públicas.
Impacto na política monetária
Na ata da reunião de 29 de abril, o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC afirmou que “o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade”. Isso significa que, para conter a inflação, o BC precisa manter a Selic mais alta do que seria necessário se todo o crédito estivesse atrelado à taxa básica.
A Selic é a referência para os juros cobrados entre bancos e influencia diretamente o custo do crédito para consumidores e empresas. Quando sobe, reduz consumo, investimentos e contratações, ajudando a conter a inflação. Quando cai, estimula a economia. O crédito direcionado, por não responder plenamente à Selic, obriga o BC a elevar ainda mais os juros para compensar o estímulo gerado por essas linhas favorecidas.
Panorama político e econômico
A retomada do crédito direcionado ocorre em um contexto de debate sobre o papel do Estado na economia. Enquanto o governo Lula defende o uso dessas linhas para fomentar setores estratégicos, como habitação, agricultura e infraestrutura, críticos apontam que os subsídios distorcem o mercado de crédito e pressionam os juros para todos. A colunista Miriam Leitão, do G1, destacou que “a guerra freou a queda dos juros”, referindo-se ao conflito entre a política fiscal expansionista e a necessidade de controle inflacionário.
O aumento do crédito direcionado também reacende o debate sobre a dívida pública. As garantias oferecidas pelo governo em programas como o Pronampe e o FGI elevam o risco fiscal, o que, somado à expansão do crédito subsidiado, contribui para a manutenção da Selic em patamares elevados. Para especialistas, enquanto não houver um ajuste fiscal consistente e uma reavaliação dos subsídios, o BC terá de manter os juros altos, penalizando o crescimento econômico e o bolso do consumidor.
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