Geração Z lidera uso de IA, mas teme perder valor no mercado de trabalho e na criatividade

A promessa para os jovens era de que a IA (inteligência artificial) os tornaria mais produtivos, mais criativos e mais empregáveis. Agora, muitos deles temem que ela possa torná-los menos valiosos. Uma pesquisa recente, divulgada pelo portal Folha de S.Paulo em 6 de setembro de 2026, revela que a Geração Z e os millennials são os grupos etários que mais utilizam ferramentas de inteligência artificial no cotidiano, seja para estudos, trabalho ou lazer. No entanto, o mesmo levantamento aponta um paradoxo: quanto mais esses jovens incorporam a tecnologia em suas rotinas, maior é a preocupação com os efeitos dela sobre o mercado de trabalho e a capacidade criativa humana.

Os dados mostram que cerca de 68% dos jovens entre 18 e 30 anos já utilizaram alguma plataforma de IA generativa, como ChatGPT, Midjourney ou Copilot, nos últimos três meses. Esse percentual é significativamente superior ao registrado entre as gerações mais velhas, como a Geração X (42%) e os baby boomers (18%). Apesar do entusiasmo inicial, 57% dos entrevistados nessa faixa etária afirmaram temer que a automação intelectual reduza as oportunidades de emprego em áreas como redação, design, programação e atendimento ao cliente. Além disso, 49% disseram acreditar que o uso excessivo de IA pode prejudicar o desenvolvimento de habilidades criativas e críticas, especialmente entre os mais novos.

Panorama político e econômico

O debate sobre o impacto da IA no mercado de trabalho ganhou contornos políticos nos últimos meses. No Brasil, o governo federal, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, anunciou em agosto a criação de um grupo de trabalho para discutir a regulamentação do uso de inteligência artificial no setor produtivo. A iniciativa ocorre em meio a pressões de sindicatos e associações de classe, que alertam para a necessidade de proteger postos de trabalho e garantir a requalificação profissional. No Congresso Nacional, tramitam ao menos quatro projetos de lei que tratam do tema, com destaque para o PL 2338/2023, que propõe um marco legal para a IA no país, e o PL 872/2024, que visa estabelecer cotas de contratação humana em setores automatizados.

No cenário internacional, a União Europeia aprovou em 2024 o AI Act, a primeira legislação abrangente sobre inteligência artificial do mundo, classificando os sistemas de IA por nível de risco e impondo obrigações de transparência e supervisão humana. Nos Estados Unidos, o governo Biden emitiu uma ordem executiva em 2023 para orientar o desenvolvimento seguro e ético da IA, mas o tema segue polarizado entre democratas e republicanos. A China, por sua vez, adotou uma abordagem mais centralizada, com regras rígidas para a geração de conteúdo por IA e foco em controle estatal.

Impactos na criatividade e na educação

Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que o medo dos jovens não é infundado. A professora Ana Lúcia Silva, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), afirma que a IA pode sim reduzir a demanda por trabalhos repetitivos e de baixa complexidade, mas também abre espaço para novas funções que exigem supervisão e curadoria. “O problema é que o sistema educacional ainda não se adaptou para formar profissionais capazes de lidar com essa nova realidade. As escolas e universidades precisam urgentemente incorporar o letramento digital e a ética da IA em seus currículos”, alerta.

Já o sociólogo Carlos Alberto de Oliveira, pesquisador do Centro de Estudos Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ressalta que a criatividade humana não pode ser reduzida a algoritmos. “A IA pode imitar padrões, mas a verdadeira inovação surge da experiência, do erro e da intuição. O risco é que, ao delegarmos cada vez mais tarefas criativas às máquinas, percamos a capacidade de pensar fora da caixa”, argumenta. A pesquisa também revela que 38% dos jovens entrevistados já usaram IA para criar arte, música ou textos, e 22% afirmaram que a tecnologia os ajudou a superar bloqueios criativos. No entanto, 44% disseram sentir que o resultado final perdeu a “alma” ou a originalidade.

Mercado de trabalho em transformação

No mercado de trabalho, os efeitos já são perceptíveis. Empresas de tecnologia, como Google, Microsoft e OpenAI, têm investido pesado em ferramentas de IA para automatizar tarefas de redação, programação e design. No Brasil, startups como Gupy e Kenoby já utilizam IA para triagem de currículos e entrevistas, o que gerou críticas de candidatos que se sentem desumanizados no processo seletivo. Por outro lado, setores como o de saúde e educação têm visto a IA como aliada para diagnósticos mais rápidos e personalização do ensino.

A pesquisa também aponta que 31% dos jovens já consideraram mudar de carreira por medo de serem substituídos por IA, enquanto 26% buscam cursos de especialização em áreas como ciência de dados, machine learning e ética em IA. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que, até 2030, cerca de 15 milhões de empregos no Brasil serão impactados pela automação, mas que 9 milhões de novas vagas podem surgir em áreas relacionadas à tecnologia.

O papel das políticas públicas

Diante desse cenário, organizações da sociedade civil, como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), têm cobrado dos governos medidas que garantam a transparência dos algoritmos e a proteção de dados pessoais. Em audiência pública na Câmara dos Deputados no último mês, o deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP), relator do PL 2338/2023, defendeu que a regulamentação da IA deve priorizar os direitos trabalhistas e a inclusão digital. “Não podemos repetir os erros da revolução industrial, quando a tecnologia avançou sem qualquer proteção social. A IA deve ser uma ferramenta para reduzir desigualdades, não para ampliá-las”, afirmou.

Enquanto isso, os jovens seguem na linha de frente do uso da IA, equilibrando entusiasmo e cautela. A pesquisa conclui que, para que a tecnologia cumpra sua promessa original, será necessário um esforço conjunto de governos, empresas e instituições de ensino para criar um ecossistema que valorize tanto a inovação quanto a humanidade. O futuro do trabalho e da criatividade, ao que tudo indica, dependerá menos da máquina e mais da forma como a sociedade escolherá integrá-la.

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