Governistas perdem em 85% das eleições na América do Sul nos últimos oito anos

Mesmo em democracias saudáveis, com instituições robustas, é natural pensar que os governistas largam na frente em qualquer eleição presidencial. O governo, afinal, ocupa naturalmente o noticiário, tem mais visibilidade e capacidade de pautar o debate, além de apresentar resultados concretos. No entanto, a América do Sul desafia essa máxima da política: segundo um levantamento feito pelo g1, nos países latino-americanos do continente que realizaram eleições reconhecidas, os governistas só venceram três dos últimos 20 pleitos desde 2018.

Os dados revelam uma tendência de alternância de poder que contraria a expectativa de vantagem eleitoral de quem está no governo. Desde 2018, apenas Paraguai e Equador registraram vitórias governistas. O Paraguai vive um período de hegemonia do Partido Colorado, sendo o único país a registrar duas vitórias seguidas da sigla que está no poder no período. No Equador, a vitória governista ocorreu em 2021, com a eleição de Guillermo Lasso, que sucedeu Lenín Moreno, ambos de centro-direita.

Colômbia e Peru: vitórias da oposição

As duas eleições mais recentes compiladas no levantamento ocorreram na Colômbia e no Peru, e terminaram com a vitória de quem não estava no governo. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella, representante da direita, derrotou por uma pequena margem de votos Iván Cepeda, candidato de esquerda e do atual presidente, Gustavo Petro. No Peru, a situação é mais complexa: Keiko Fujimori, também de direita, receberá a faixa de José María Balcázar, escolhido pelo Congresso para cumprir um mandato-tampão, após a destituição de Dina Boluarte. Na prática, não havia candidato governista na disputa.

Em muitos casos, desde 2018, os governistas encerram o ciclo eleitoral com a popularidade em baixa ou envolvidos em escândalos, e não apresentam candidatos. A derrota governista nem sempre significa, necessariamente, uma alternância entre esquerda e direita. O levantamento compilou apenas os países latino-americanos independentes da América do Sul. A Venezuela não entrou na contagem por não ter eleições consideradas justas pela comunidade internacional.

Panorama político geral

O cenário reflete uma insatisfação generalizada com os governos em exercício, agravada por crises econômicas, escândalos de corrupção e baixa capacidade de entrega de resultados. A tendência de derrota governista também é observada em outros continentes, mas na América do Sul ela se destaca pela constância. Especialistas apontam que a fragmentação partidária e a desconfiança nas instituições contribuem para esse fenômeno. Enquanto isso, partidos de oposição, muitas vezes de direita, têm conseguido capitalizar o descontentamento popular, como visto no Peru e na Colômbia. O Paraguai, com sua hegemonia partidária, permanece como exceção, mas não indica uma reversão da tendência regional.

Veja o desempenho do governismo do continente nas últimas eleições: em 2018, no Paraguai, Horacio Cartes entregou o poder a Mario Abdo Benítez, ambos do Partido Colorado, de direita, em vitória governista. Na Colômbia, em 2018, o governismo não ganhou: Juan Manuel Santos (considerado centrista) entregou o poder para Iván Duque, do Centro Democrático (direita). Duque se opôs ao acordo de paz que Santos costurou com os guerrilheiros das Farc e se aliou a Álvaro Uribe, com quem Santos havia rompido anos antes. No Brasil, em 2018, o governismo também não ganhou: Michel Temer (MDB) passou a faixa para Jair Bolsonaro (então no PSL). O candidato do MDB, Henrique Meirelles, teve apenas 1,2% dos votos.

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