O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) descarta rejeitar a indicação de Daniel Perez para o cargo de embaixador dos Estados Unidos no Brasil com base em critérios ideológicos, apesar de o nome ser um forte defensor do movimento “Make America Great Again” (MAGA) e de pautas defendidas pelo secretário de Estado Marco Rubio. A informação foi divulgada pelo blog da Ana Flor, que revelou que a indicação foi feita sem consulta formal prévia ao governo brasileiro, o que causou incômodo no Itamaraty e pode gerar novo atrito entre Brasil e Estados Unidos.
Na prática diplomática, os governos costumam realizar uma consulta formal e confidencial sobre o nome desejado para comandar a embaixada — o chamado “agrément” — antes de anunciar o escolhido. No caso de Daniel Perez, o anúncio ocorreu sem esse passo, o que irritou setores da diplomacia brasileira. A partir do momento em que o “agrément” for solicitado, o Brasil fará uma análise geral do currículo do indicado, como é praxe, avaliando, por exemplo, se ele atuou contra o país em algum momento. Em tese, caso não haja nada que desabone, diferenças políticas ou ideológicas não devem ser critério para negar a autorização.
Panorama político e diplomático
De acordo com interlocutores da área internacional do governo brasileiro, essas diferenças ideológicas não são adotadas para gerenciar as relações ou o diálogo entre chefes de estado, da mesma forma que não serão para representantes diplomáticos. A diplomacia brasileira entende que, do ponto de vista simbólico, é importante ter um embaixador no país, diferentemente de um encarregado de negócios — cargo abaixo ao de um embaixador em uma representação. O embaixador tem maior interlocução com o governo brasileiro, e o Brasil acredita que isso seria um gesto positivo.
Diplomatas ouvidos pela reportagem descartaram comparar o caso com a não concessão de “agrément” para Gali Dagan, nome indicado por Israel para assumir a embaixada em Brasília em agosto do ano passado. Na ocasião, não houve veto formal, mas o Itamaraty deixou o pedido sem resposta, em reação à forma como o governo de Benjamin Netanyahu tratou o então embaixador brasileiro em Tel Aviv, Frederico Meyer, que foi chamado a dar explicações sobre posicionamentos do Brasil. O episódio ilustra como o governo brasileiro pode reagir a gestos diplomáticos considerados desrespeitosos, mas, no caso da indicação de Trump, a avaliação será técnica e não ideológica.
A relação entre Brasil e Estados Unidos tem sido marcada por encontros de alto nível, como a reunião entre Lula e Donald Trump na Casa Branca, onde discutiram terras raras, crime organizado e comércio. A indicação de Perez ocorre em um contexto de alinhamento do governo Trump a pautas conservadoras e de afirmação dos interesses norte-americanos na América Latina, mas o governo brasileiro sinaliza que não deixará que diferenças políticas interfiram na relação diplomática.
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