Governo Lula reage a classificação de facções como terroristas pelos EUA e defende soberania nacional

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi surpreendido pela decisão do governo Donald Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras, e agora articula uma resposta que prioriza a defesa da soberania nacional, sem descartar um contato direto com o líder norte-americano. A medida, anunciada pelo Departamento de Estado chefiado por Marco Rubio, gerou mal-estar no Palácio do Planalto, que avalia os impactos políticos e diplomáticos da ação, especialmente em ano eleitoral no Brasil.

De acordo com auxiliares do presidente brasileiro, a avaliação inicial é de que Donald Trump pode não ter participado diretamente da formulação da medida, que teria sido influenciada pela ala mais radical do governo norte-americano. Ainda assim, o Planalto entende que a decisão representa um possível alinhamento de Trump com o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, que esteve na Casa Branca nesta semana e defendeu a adoção da medida junto ao presidente dos EUA. Para a equipe de Lula, o governo americano deveria ter negociado ou ao menos avisado o Brasil antes do anúncio, o que não ocorreu, pegando de surpresa o Itamaraty e o Ministério da Justiça.

Cooperação sim, intervenção jamais

O presidente Lula passou a noite de quinta-feira (28) em contato com integrantes da cúpula do governo para discutir a resposta brasileira. A orientação, alinhada com o assessor internacional Celso Amorim, é clara: cooperação, sim; intervenção, jamais. Lula conversou com o chanceler Mauro Vieira, com o número 2 da Assessoria Especial da Presidência, Audo Faleiro — já que Amorim está retornando da Rússia —, com o ministro da Justiça, Wellington César, e com o ministro da Fazenda, Dario Durigan. A maior parte das conversas ocorreu por telefone.

Ao Ministério da Justiça, Lula determinou um levantamento sobre os prejuízos que a medida norte-americana pode trazer à cooperação entre os países no combate ao crime organizado. Já a Dario Durigan, o presidente pediu um estudo rápido sobre os possíveis impactos econômicos da decisão. O governo brasileiro busca uma neutralidade de Trump no processo eleitoral, mas sabe que pode explorar politicamente um eventual apoio do americano ao filho de Jair Bolsonaro, já que a imagem de Trump junto à população brasileira é amplamente negativa.

A forma como a medida foi divulgada desagradou o presidente e foi avaliada como uma sinalização de que Trump pode tentar dar apoio a Flávio Bolsonaro na campanha eleitoral. O Planalto quer articular uma cooperação com os Estados Unidos voltada ao combate ao crime organizado, mas rejeita qualquer interferência externa. A decisão de Trump também reacende o debate sobre a soberania nacional e a relação entre os dois países, em um momento de tensão diplomática e de disputa política interna no Brasil.

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