As companhias aéreas de todo o mundo enfrentam um custo extra de US$ 100 bilhões (cerca de R$ 512,3 bilhões) em combustível de aviação apenas neste ano, após a guerra no Irã provocar uma disparada nos preços do petróleo e do querosene. O alerta foi feito por uma entidade global do setor, que aponta o conflito no Oriente Médio como o principal vetor de pressão sobre as contas das empresas, em um momento em que o mercado ainda busca se recuperar dos choques anteriores.
O aumento representa um acréscimo médio de 40% nos custos com querosene de aviação (QAV) em relação ao orçamento previsto para 2026, antes da escalada do conflito. Segundo a entidade, que reúne as principais associações de transporte aéreo do mundo, o impacto já está sendo repassado para o valor das passagens, com alta média de 18% nas tarifas domésticas e internacionais nos últimos três meses. A situação é particularmente grave para companhias de baixo custo (low cost), que operam com margens mais apertadas e dependem fortemente de preços estáveis de combustível.
Panorama geopolítico e econômico
A guerra no Irã, iniciada em meados de 2025, desestabilizou uma das regiões mais estratégicas para o fornecimento global de energia. O país persa é o terceiro maior produtor da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e controla o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. Com as sanções e os bloqueios navais, o preço do barril de petróleo tipo Brent saltou de US$ 75 para mais de US$ 120, elevando na mesma proporção o custo do QAV, que responde por 25% a 35% das despesas operacionais de uma companhia aérea.
O cenário agrava ainda mais a crise inflacionária global. Conforme reportado anteriormente pelo Republica do Povo, o conflito no Oriente Médio e o El Niño elevam projeção de inflação dos alimentos para 7% em 2026, enquanto a crise do petróleo completa cem dias e ainda assombra a economia global. O setor aéreo, que já havia sido duramente atingido pela pandemia de Covid-19, agora vê sua recuperação ameaçada por um novo choque de oferta.
Impacto sobre o mercado de aeronaves e biocombustíveis
A instabilidade geopolítica também afeta as decisões de investimento das empresas. O presidente da Embraer já havia sinalizado que a guerra no Irã gera cautela e adia decisões de compra de aeronaves, o que pode reduzir encomendas e postergar a renovação de frotas. Em paralelo, o setor de biocombustíveis busca alternativas para mitigar os custos. O agronegócio e a indústria de biocombustíveis reagem ao tarifaço dos EUA e buscam negociação para evitar impactos nas exportações, enquanto a Raízen recentemente fechou acordo extrajudicial de R$ 65 bilhões com credores na maior reestruturação do setor sucroenergético, sinalizando a busca por soluções financeiras diante do cenário adverso.
Para as companhias aéreas, a saída de curto prazo tem sido o hedge cambial e a negociação de contratos de longo prazo com fornecedores, mas a volatilidade dos preços do petróleo torna qualquer planejamento arriscado. A entidade global do setor estima que, se o conflito persistir por mais seis meses, o custo extra pode chegar a US$ 150 bilhões, elevando o preço das passagens em até 30% e reduzindo a demanda global por voos em 12%.
O governo brasileiro, por meio do Ministério de Portos e Aeroportos, acompanha a situação com preocupação. O Brasil é um dos maiores mercados de aviação civil do mundo, e a alta dos combustíveis já pressiona a inflação doméstica. A Agência Nacional de Petróleo (ANP) registrou aumento de 22% no preço do QAV nos aeroportos brasileiros nos últimos dois meses, o que deve impactar diretamente as tarifas para o segundo semestre de 2026.
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