Itamaraty alerta para risco de intervenção militar dos EUA no Brasil após classificação de PCC e CV como terroristas

O Itamaraty enviou um documento à Câmara dos Deputados, assinado pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, alertando para o “risco de uso da força militar” dos Estados Unidos no Brasil, após a classificação das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. A medida, adotada pelo governo de Donald Trump no fim de maio, ocorreu sem conversas formais prévias com o Brasil, segundo o governo brasileiro. O chanceler se valeu de episódios recentes na região — como os casos da Venezuela, Colômbia e Cuba — para fundamentar a preocupação, embora o próprio Itamaraty reconheça que não há elemento novo que indique essa possibilidade.

No documento, o Departamento de Estado norte-americano afirma que o CV e o PCC “são duas das maiores organizações criminosas mais violentas do Brasil” e que sua influência “se estende muito além das fronteiras do Brasil”, chegando aos Estados Unidos. Desde então, o governo brasileiro critica a medida, argumentando que ela não contribui para desestruturar as facções, não ajuda no combate internacional ao crime organizado e pode gerar consequências a pessoas e empresas sem relação direta com as atividades criminosas.

Casos citados pelo Itamaraty

O ministro Mauro Vieira, ao responder ao deputado Evair de Melo, listou exemplos recentes de intervenções militares dos EUA na região. Entre eles, o bombardeio em janeiro deste ano em Caracas, capital da Venezuela, que resultou na prisão do então presidente Nicolás Maduro. Essa foi a primeira intervenção militar direta dos Estados Unidos em um país da América Latina desde a derrubada do ditador do Panamá, Manuel Noriega, há 36 anos. A operação ocorreu após meses de tensões e começou em agosto, sob a justificativa de combate ao tráfico internacional de drogas.

Outro caso mencionado foram os ataques a barcos supostamente operados por traficantes perto da costa da Colômbia, que ampliam o histórico de ações unilaterais dos EUA na região. O governo brasileiro também observa que a classificação de facções como terroristas pode abrir precedentes para ações militares, como ocorreu em Cuba e em outros países da América Latina, onde os EUA justificaram intervenções com base no combate ao narcotráfico e ao terrorismo.

O panorama político geral é de tensão diplomática entre Brasil e Estados Unidos, agravada pela falta de diálogo prévio e pela percepção de que a medida de Trump pode ser usada para justificar ações unilaterais. Enquanto o governo brasileiro busca alternativas para mitigar os efeitos da classificação, o Itamaraty reforça a necessidade de cooperação internacional sem violação da soberania nacional.

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