Lobo em pele de cordeiro: A Casa do Autista 

A última dança de JHC como blogueiro-prefeito

Antes do que parece ser sua desincompatibilização do cargo público de prefeito de Maceió, JHC tem uma agenda cheia até 3 de abril, véspera da data limite definida pelo TSE, 04/04. Terça-feira, 31/03, às 10h, o prefeito vai inaugurar o que nomeou como Casa do Autista, um equipamento público vizinho do famigerado HC, Hospital da Cidade. Essa “casa” custou aos cofres públicos, de acordo com o Contrato de Gestão da Casa do Autista, publicado em abril de 2025, R$ 20.437.091,09, financiado por recursos não vinculados de compensação de danos patrimoniais e extrapatrimoniais via Maceió Saúde — sim, olha ele aí novamente, o serviço social autônomo (SSA) fundado por JHC para cuidar de parte da Saúde de Maceió, inclusive do HC, e que ainda contratam terceiros para gestões administrativas. Ou seja, para quê serve esse Maceió Saúde na prática? 

Deixo para os olfatos atentos pegarem no ar o que já cheira mal há um tempo.

O fato é que, não suficiente os mais de 20 milhões de reais, custo esse semelhante a uma delegacia especializada de alta tecnologia (DRACO) ou a um projeto estadual de infovias, há um aditivo de aquisição de equipamentos de R$ 1.609.670,00 para equipamentos de informática. De antemão, parece que dinheiro não é realmente o problema. Contudo, um olhar mais atento é possível notar um padrão — um projeto se concretizando. Vamos voltar alguns passos para a compreensão total.

Maceió tem, pelo menos, 3.000 crianças que precisam de acompanhamento especializado em razão do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outras condições. O número foi confirmado por vereadores durante sessão ordinária na Câmara Municipal.

Porém esse dado não foi o suficiente para uma paralisação total de um serviço multidisciplinar de reabilitação que funcionava em duas unidades da capital ocorrer em 6 de março, após falta de repasses por parte da Prefeitura de Maceió. O serviço oferecia atendimento integrado por fisioterapeuta, psicólogo, psicopedagoga, assistente social e educador físico. Ao todo, 325 crianças estavam sendo atendidas nas duas unidades. Dentre elas, 150 do bairro do Benedito Bentes e 175 do CERV IV, Farol.

Com a suspensão dos serviços, todas as crianças foram desligadas das atividades terapêuticas

A Secretaria Municipal de Saúde não emitiu nota pública sobre a interrupção até a publicação deste levantamento.

Nessa guerra, JHC parece ter se armado bem, pois alguns dias depois, em 11 de março, a Semed publicou a Portaria nº 059/2025 determinava que um PAE (Profissinal de Apoio Especial) pode ser responsável por até seis crianças com TEA de nível 1 (leve), quatro de nível 2 (moderado) e duas de nível 3 (severo). Na prática isso significava uma mudança no mínimo absurda, onde um profissional seria responsável por seis crianças autistas, em qualquer cenário. A norma gerou reação imediata de profissionais e responsáveis. Mães de crianças autistas realizaram manifestação silenciosa em frente ao Centro de Convenções, no bairro do Jaraguá, contra a portaria. Com cartazes e pedidos de “Um PAE para cada autista”, o grupo expôs a insatisfação com a norma.

O Sinteal (Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas) emitiu nota de repúdio e acionou seu departamento jurídico, que levantou questionamentos à portaria. O Ministério Público Estadual recomendou ao prefeito JHC que garantisse o direito à educação de crianças e adolescentes com deficiência. Após reunião convocada pela Defensoria Pública de Alagoas, a Prefeitura anunciou a republicação da portaria. A reviravolta veio três dias depois, em 14 de março de 2025, mas não eliminou a estrutura do problema.

A afronta final, pelo menos até então, veio em fevereiro de 2026 (retorno às aulas), onde crianças com TEA estavam sendo impedidas de frequentar aulas na rede municipal de ensino de Maceió por falta de Profissionais de Apoio Escolar (PAEs). Mesmo com o direito garantido por lei, mães denunciam que seus filhos eram barrados já no primeiro dia letivo. Não existia profissionais disponíveis contratados pelo município para dar conta e as escolas foram direcionadas a barrar o acolhimento dessas crianças e, em alguns casos, aconselhavam a ingressar com uma ação judicial para obrigar a Semed a disponibilizar um acompanhante. 

O desmonte dos profissionais que devem dar apoio às crianças com TEA pode ser observado em diversas escolas municipais, conforme denúncias: no lugar do PAE, auxiliares de sala são deslocados para “dar suporte”, muitas vezes sem sequer conhecer o grau de suporte necessário da criança. Segundo relatos, há crianças que passaram todo o ano letivo anterior fora da escola, aguardando um profissional que nunca chegou. Uma professora ouvida pelo portal Folha de Alagoas foi direta: “Em resumo, eu posso dizer que é negligência. A Semed negligencia totalmente a situação das nossas crianças autistas.” Em 2025 e 2026, a empresa IGeve, responsável por profissionais de apoio escolar, aguardava repasses da Semed. Até o momento, o problema persiste

Vindo pela Fernandes Lima, ao virar a esquerda para a Rua Ariosvaldo Pereira Cintra, na Gruta, você verá toda colorida e chamativa, para não dizer o manjado instagramável, Casa do Autista. Parece perfeito se não fosse antagônico: um suposto local de acolhimento de portadores de TEA e seus cuidadores que sofrem com as atitudes ineficientes e inconsequentes da própria gestão que o fundou. A coexistência de um investimento significativo em uma nova estrutura (Casa do Autista) com a persistência de problemas na rede de apoio básico (falta de PAEs e atrasos em repasses) instiga a necessidade de uma análise, ou no mínimo um questionamento público, sobre a alocação de recursos e a gestão das políticas públicas para o autismo em Maceió. A falta de transparência detalhada sobre os custos de manutenção da Casa do Autista e a dificuldade em rastrear cortes específicos nos orçamentos de serviços básicos dificultam uma conclusão, fato.

Contudo, é facilmente possível refletir que a Casa do Autista se assemelha muito mais como mais uma ferramenta de marketing político que JHC já é conhecido por desenvolver do que propriamente o resultado de uma política pública pensada em resolver questões que impactam milhares de famílias maceioenses.

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