O ano era 2002. Sobre a Copa do Mundo daquele ano, todos nós já sabemos o final: vitória do Brasil por 2 a 0 sobre a Alemanha e a conquista do pentacampeonato. Os dois gols foram marcados por Ronaldo, o “Fenômeno”, no segundo tempo — aos 22 e aos 34 minutos — em uma atuação que entrou para a história do futebol brasileiro.
Mas antes daquela final em Yokohama, houve um episódio que gerou enorme controvérsia no país. Durante o período de convocação para a Copa, o então treinador da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari, tomou uma decisão que dividiu opiniões: deixou Romário fora da lista final.
Para muitos torcedores mais jovens, a ausência pode parecer relacionada ao desempenho físico do atacante ou ao momento esportivo. Na realidade, a questão era mais profunda. O motivo central foi a quebra de confiança entre jogador e comissão técnica.
Romário havia pedido dispensa da Copa América daquele ano alegando que precisaria passar por uma cirurgia. Pouco tempo depois, no entanto, participou de amistosos pelo Vasco no México. A situação desagradou profundamente a comissão técnica e, sobretudo, Felipão, que passou a entender que a relação de confiança havia sido comprometida.
A decisão foi mantida mesmo diante de intensa pressão pública e interna. Jogadores consagrados da seleção chegaram a manifestar apoio ao “Baixinho”, enquanto a imprensa e parte da torcida defendiam sua convocação. Em determinado momento, Romário chegou a pedir desculpas publicamente em entrevista. Ainda assim, Scolari não voltou atrás.
O tempo, ao menos do ponto de vista esportivo, acabou legitimando a decisão. A seleção conquistou o título mundial e o episódio ficou marcado como um exemplo de como decisões técnicas e disciplinares podem se sobrepor até mesmo ao talento de grandes jogadores.

Esse preâmbulo ajuda a compreender algo fundamental sobre o futebol profissional em sua essência: ele é sustentado por dois pilares básicos — performance e comprometimento.
É nesse ponto que o debate contemporâneo sobre Neymar ganha contornos interessantes.
Pode-se gostar ou não da figura pública de Neymar, de seu comportamento fora de campo ou do personagem que se construiu em torno de sua carreira. Mas qualquer pessoa que compreenda minimamente o futebol sabe reconhecer sua capacidade técnica. Neymar é um extraclasse dentro de uma categoria já restrita de jogadores extraordinários. Seu talento e seu poder de decisão são indiscutíveis, construídos ao longo de uma carreira que o colocou entre os principais nomes do futebol mundial por mais de uma década.
No entanto, o novo comando técnico da seleção brasileira parece ter estabelecido um critério claro. Carlo Ancelotti indicou, em diferentes momentos, que a convocação para a equipe nacional depende de uma condição básica: estar 100% fisicamente e em plena condição de jogo.

Em teoria, esse princípio deveria ser algo absolutamente natural em qualquer ambiente esportivo profissional. Um treinador precisa de atletas capazes de sustentar intensidade competitiva, cumprir funções táticas e responder fisicamente ao nível exigido de uma competição internacional.
O problema surge quando esse critério encontra um jogador com características excepcionais. Quando se trata de um atleta comum, a exigência do “100%” raramente é questionada. Mas quando falamos de alguém com a capacidade decisiva de Neymar, muitos torcedores passam a se perguntar se essa régua não poderia, eventualmente, ser ajustada.
Seria possível convocar um jogador com 70% ou 75% de sua condição física, apostando em sua capacidade técnica para resolver partidas?
Essa discussão ganhou novo capítulo recentemente. Na partida entre Mirassol e Santos pelo Campeonato Brasileiro, Carlo Ancelotti esteve presente no estádio para observar o jogo de perto. A visita não era uma surpresa. O Santos e o estafe de Neymar já sabiam, com cerca de quinze dias de antecedência, que aquela seria uma oportunidade importante de observação.
Nesse período, o clube não teve compromissos oficiais por aproximadamente duas semanas — um intervalo relativamente longo para os padrões do calendário atual do futebol. Em tese, seria um tempo suficiente para planejamento físico, controle de carga e preparação específica para que o atleta estivesse apto a atuar.
Ainda assim, Neymar não entrou em campo.
Argumenta-se que o Santos priorizava outro confronto, contra o Corinthians. Porém, esse tipo de justificativa parece frágil quando transportada para o contexto de uma Copa do Mundo. Em um torneio dessa magnitude, todos os jogos são prioritários. Não existe espaço para administrar presença em campo ou escolher partidas.
A seleção precisa contar com jogadores capazes de sustentar 90 minutos de intensidade competitiva quando necessário.
Por isso, na minha avaliação, grande parte dessa polêmica não nasce dentro da comissão técnica, mas sim no ambiente midiático. Acompanhando as entrevistas de Carlo Ancelotti antes e depois de assumir a seleção, fica evidente que o treinador raramente puxa o assunto Neymar por iniciativa própria. O tema surge quase sempre como resposta a perguntas insistentes ou a situações criadas externamente.
No fundo, a questão parece ser menos técnica e mais simbólica.
Existe uma expectativa pública e comercial muito grande em torno da presença de Neymar na Copa do Mundo. A força de sua imagem ultrapassa o campo esportivo e envolve interesses institucionais, comerciais e midiáticos.
Mas dentro de campo a lógica tende a ser outra.
Em um futebol cada vez mais físico, coletivo e taticamente exigente, carregar um jogador que não contribua plenamente em todas as fases do jogo pode representar um risco competitivo. Contra seleções de alto nível — como a França, por exemplo — cada detalhe importa. Um atleta que não participe da pressão defensiva ou que não consiga sustentar intensidade pode comprometer o funcionamento coletivo.
A seleção brasileira não precisa apenas de talento. Precisa de jogadores que consigam competir.
Nesse sentido, a discussão sobre Neymar talvez não seja sobre sua qualidade técnica — algo que dificilmente será contestado. A questão real é se seu corpo ainda conseguirá sustentar o nível de exigência que o futebol contemporâneo impõe.
Porque, no fim das contas, como Felipão demonstrou em 2002, o futebol profissional raramente se move apenas pelo brilho individual. Ele se move pela capacidade de um grupo funcionar.
