Eles querem definir o que elas devem sentir. Eles acreditam (quem diria?) que conseguem disfarçar suas reais intenções ao utilizarem máscaras — as dos perfis de redes sociais ou as de palhaço. Eles minimizam relatos de situações que, na realidade, são graves. E quem são eles? Talvez o leitor não saiba. Porém, a leitora, sem dúvida, tem certeza.
Vamos ao que decorreu, em três blocos:
Primeiro: um homem, vestido como palhaço, entrou em diversas salas de aula da Universidade Federal de Alagoas na última semana. Autodeclarado artista, constrangeu, perturbou e importunou mulheres durante suas apresentações. Ele chegou à Ufal durante a manhã e ficou passeando de curso em curso até ser questionado pela empresa terceirizada de segurança à noite (por que a demora, reitoria?).
Segundo: com a notícia sendo veiculada pela imprensa nas mídias sociais, homens correram aos comentários, já que suas opiniões sempre são de grande relevância — nem que seja somente para eles próprios — e precisam, portanto, ser públicas e notórias. As respostas? “É tudo mimimi”, “não vi nada de mais no vídeo”, “hoje tudo é assédio” e daí para pior. Se para este que escreve — homem — é revoltante ler estas coisas, não consigo imaginar como é para uma mulher.
Terceiro: depois da repercussão, o homem, palhaço como é (a interpretação é livre), resolveu fazer um pronunciamento em seu perfil do Instagram. Afirmou realizar este número há décadas, em universidades públicas e privadas, ser reconhecido pelo seu trabalho e nunca ter assediado ninguém. Recebeu apoio de amigos na publicação.
Agora, aos fatos:
Em toda a sequência de acontecimentos, as mulheres tiveram suas falas tratadas como ‘palhaçada’. Ao receberem beijos no rosto sem consentimento, o espaço delas foi invadido. Ao terem seus relatos postos em dúvida por homens e suas opiniões vazias — e cheias de esvaziamento —, as vozes delas foram silenciadas. Ao verem o palhaço negar ter feito o que fez e ser aplaudido por alguns, a importunação que elas sofreram foi transformada em brincadeira.
Não tem nada revolucionário aqui, são só obviedades; ainda assim, eles não enxergam. Na mesma linha, é óbvio que quem determina o que é assédio não é quem o comete, mas eles insistem em dizer como as vítimas devem — e se podem — reagir. São incontáveis gerações reproduzindo a lógica patriarcal desde o berço, e os homens acham que têm o direito de ditar ‘o certo’, do alto de sua superioridade fundada na fé em uma divindade — que, por acaso, é homem. Enquanto isso, silenciam, oprimem e matam mulheres, com armas ou com palavras.
À gestão da Ufal, um questionamento: será que a instalação de um Banco Vermelho no prédio da Reitoria para, ao sentar-se, refletir sobre a violência contra as mulheres era mesmo uma prioridade em detrimento da formulação, discussão e aprovação de políticas institucionais de segurança e acolhimento para elas e de punição para eles?
