Lula sanciona lei que cria a primeira Universidade Federal Indígena do Brasil, a Unind

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou nesta quinta-feira (28) a lei que cria a Universidade Federal Indígena (Unind), a primeira instituição de ensino superior do país voltada exclusivamente à realidade dos povos originários. A proposta, aprovada pelo Senado em maio sem alterações ao texto da Câmara, prevê que a universidade comece a funcionar em 2027, com sede em Brasília e campi distribuídos por diferentes regiões do Brasil, de forma a contemplar a diversidade indígena. A cerimônia de sanção ocorreu no Palácio do Planalto, com a presença de lideranças indígenas, parlamentares e ministros.

A nova universidade, vinculada ao Ministério da Educação, terá capacidade inicial para atender 2,8 mil alunos, com 366 docentes e 10 cursos de graduação e pós-graduação. As áreas de ensino incluem gestão ambiental e territorial, gestão de políticas públicas, sustentabilidade socioambiental, promoção das línguas indígenas, saúde, direito, agroecologia, engenharias e tecnologias, formação de professores e outras consideradas estratégicas para o fortalecimento da autonomia dos povos indígenas, conforme justificativa do governo na proposta original. A universidade seguirá as diretrizes de organização, gestão e financiamento das demais federais, respeitando o princípio constitucional da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, com especificidades relacionadas à sua natureza e foco.

Panorama político e desafios

A sanção da lei ocorre em um contexto de intensos debates sobre direitos indígenas no Brasil, especialmente após a promulgação do marco temporal (Lei 14.701/2023), que restringe a demarcação de terras a áreas ocupadas até 1988. A criação da Unind é vista por movimentos indígenas como uma conquista histórica, mas também como um contraponto às políticas de retrocesso. Durante a cerimônia, Lula afirmou que “há muita incompreensão” quando se discute a universidade: “Importante porque aos poucos a gente vai ensinando o mundo a compreender que é possível de forma civilizada a gente garantindo a todos aqueles que habitam o planeta a terem seus direitos, a terem sua participação. Há muita incompreensão até no meio de muita gente nossa, conheço indígena que era contra criar universidade, tem que respeitar, era contra, não éramos contra, deputados e senadores não eram contra e a gente aprovou. Agora temos até o prédio.” A fala do presidente reflete a polarização em torno do tema, com setores do agronegócio e parlamentares conservadores criticando a medida, enquanto organizações indígenas e ambientalistas a celebram.

Pelo texto aprovado no Congresso, os cargos de reitor e vice-reitor da Unind serão obrigatoriamente ocupados por docentes indígenas. O primeiro reitor, no entanto, será nomeado em caráter temporário pelo ministro da Educação, até que a universidade aprove seu próprio estatuto e estabeleça as regras para a escolha do dirigente. A instituição também poderá realizar processos seletivos próprios, com base na Lei de Cotas, assegurando o acesso prioritário de estudantes indígenas. Segundo o governo, a inauguração da sede está prevista para o mês que vem, embora o início efetivo das aulas seja em 2027.

A criação da Unind insere-se em um movimento mais amplo de políticas afirmativas no ensino superior brasileiro, que inclui a expansão de cotas raciais e sociais. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a população indígena no Brasil é de cerca de 1,7 milhão de pessoas, com baixa representação no ensino superior — menos de 1% dos matriculados em universidades federais. A nova universidade busca reverter esse quadro, oferecendo formação alinhada às necessidades e cosmovisões dos povos originários, com ênfase em sustentabilidade e gestão territorial. A medida também dialoga com compromissos internacionais assumidos pelo Brasil, como a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas (2007), que garante o direito à educação em todos os níveis.

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