Milei desiste de cúpula do Mercosul após reunião com Flávio Bolsonaro; imprensa argentina aponta influência

O presidente da Argentina, Javier Milei, cancelou sua participação na cúpula do Mercosul marcada para os próximos dias, decisão tomada logo após um encontro com o senador brasileiro Flávio Bolsonaro (PL-RJ). A imprensa argentina, em reportagens veiculadas nesta quinta-feira (26), relaciona diretamente a ausência do mandatário ao diálogo com o parlamentar, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, levantando questionamentos sobre os rumos da política externa argentina e os laços entre os governos de direita na região. A cúpula, que reuniria líderes dos países-membros do bloco, é considerada estratégica para discutir pautas comerciais e de integração, e a desistência de Milei ocorre em um momento de tensões internas no Mercosul.

De acordo com fontes da Casa Rosada citadas pela imprensa local, o encontro entre Milei e Flávio Bolsonaro ocorreu em Buenos Aires na véspera do anúncio, e teria abordado temas como alinhamento ideológico, críticas ao atual governo brasileiro e possíveis estratégias conjuntas para as eleições de 2026. O senador brasileiro, que cumpre agenda na Argentina, não detalhou o conteúdo da conversa, mas aliados próximos afirmam que a reunião reforçou a sintonia entre o bolsonarismo e o mileísmo. A decisão de cancelar a ida ao Mercosul foi comunicada oficialmente pelo Ministério das Relações Exteriores argentino, que citou “compromissos internos urgentes” como justificativa, sem mencionar o encontro com o parlamentar.

Impactos na integração regional

A ausência de Milei na cúpula do Mercosul ocorre em um contexto de fragilidade do bloco, que enfrenta divergências entre seus membros sobre acordos comerciais com a União Europeia e a China. O presidente argentino, que assumiu em dezembro de 2023 com uma plataforma ultraliberal, já havia sinalizado ceticismo em relação ao Mercosul, defendendo maior flexibilidade para acordos bilaterais. A desistência, no entanto, surpreendeu analistas, que esperavam sua presença para avançar em negociações sobre a redução da Tarifa Externa Comum (TEC). O Brasil, maior economia do bloco, deve enviar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem mantido uma relação distante com Milei, marcada por críticas mútuas em temas como democracia e políticas econômicas.

Para especialistas em relações internacionais, o episódio evidencia a crescente influência de setores da direita brasileira sobre o governo argentino. “A reunião com Flávio Bolsonaro e o subsequente cancelamento indicam que Milei está priorizando alianças ideológicas em detrimento de compromissos institucionais com o Mercosul”, avalia a cientista política María Fernanda Silva, da Universidade de Buenos Aires. “Isso pode enfraquecer ainda mais a capacidade de negociação do bloco e isolar a Argentina em um momento em que o país precisa de parceiros comerciais para enfrentar a crise econômica.” A Argentina vive uma inflação anual superior a 200% e uma recessão profunda, o que torna a integração regional crucial para sua recuperação.

Reações e desdobramentos políticos

No Brasil, a oposição ao governo Lula celebrou a aproximação entre Milei e Flávio Bolsonaro, enquanto aliados do Planalto criticaram a decisão do argentino. O senador Flávio Bolsonaro afirmou, em nota, que o encontro foi “produtivo e alinhado aos interesses do povo brasileiro e argentino”, sem comentar diretamente o cancelamento. Já o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, por meio de nota, expressou “estranhamento” com a ausência de Milei, mas reiterou o compromisso com o diálogo no âmbito do Mercosul. A cúpula, que ocorrerá em Assunção, no Paraguai, deve discutir a modernização do bloco e a ampliação de acordos com outros países, mas a ausência do líder argentino reduz as expectativas de avanços concretos.

O episódio também reacende o debate sobre a polarização política na América do Sul, com Milei e Jair Bolsonaro sendo vistos como aliados em uma frente conservadora que desafia os governos de esquerda na região. Enquanto isso, a imprensa argentina segue investigando os detalhes do encontro entre o presidente e o senador brasileiro, com alguns veículos especulando sobre a possibilidade de uma visita de Flávio Bolsonaro a Buenos Aires ter sido articulada para influenciar a agenda de Milei. A Casa Rosada, até o momento, não se pronunciou oficialmente sobre as especulações, limitando-se a confirmar o cancelamento da viagem.

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