Morreu nesta quinta-feira (16), no Rio de Janeiro, aos 83 anos, o jornalista Renato Machado, uma das maiores referências do telejornalismo brasileiro. Nas últimas quatro décadas, Renato ajudou a contar a história do Brasil e do mundo, inovando na forma de transmitir a notícia com um talento raro: aquele que encontra a melhor voz para a palavra certa. A informação foi confirmada pela TV Globo, onde ele trabalhou por mais de 40 anos.
A voz marcante, o texto preciso e uma elegância indiscutível marcaram a carreira de Renato Machado na TV Globo. Formado em Direito, ele driblou a promessa que tinha feito à mãe de ser diplomata. Renato passou na prova do Itamaraty, mas deu um jeito de ser reprovado no exame de vista. “Como é que eu fiz isso? Bem, eu não levei as lentes de contato. Então, quando o sujeito me mandou ler as letras na parede, eu falei: ‘Que parede?’ Então, aí eu fui reprovado, e tive em casa esse argumento: ‘Olha, não passei no exame. Vou tentar o ano que vem’. E aí a coisa se diluiu”, contou Renato ao Memória Globo.
Antes de ser jornalista, tentou a vida artística: foi ator e dublador até começar a trabalhar na rádio BBC, em Londres, no fim dos anos de 1960. Com microfone na mão, nascia o repórter dono de um texto sem excessos. “Isso me obrigou a uma certa simplificação de texto, me obrigou a limpar as minhas literatices, que eram insuportáveis nessa época”, disse Renato ao Memória Globo. Do rádio, foi para a redação do Jornal do Brasil. Até que, em 1982, estreou na TV Globo, mostrando o dia a dia do Rio de Janeiro no RJTV.
Uma das primeiras coberturas internacionais de Renato Machado foi a da Guerra das Malvinas. Quando esteve na Nicarágua, durante a guerra civil, conseguiu uma entrevista exclusiva com o guerrilheiro e futuro presidente Daniel Ortega. O posto de correspondente internacional, em Londres, foi um destino natural. Renato nos mostrava o mundo com olhar brasileiro: cobriu os atentados terroristas em Paris, em 1986, e, no mesmo ano, o acidente nuclear de Chernobyl, na ex-União Soviética. “Os medidores lá em Uppsala faziam assim, aquilo, os ponteiros… Teve uma hora que eu fui gravar lá uma coisa perto de um lago e um cientista me disse: ‘Olha, grava esse troço rápido aí porque você está correndo um risco aí, porque é na superfície dos lagos que a radioatividade pousa’”, lembrou Renato ao Memória Globo.
De volta ao Brasil, testemunhou o impeachment do ex-presidente Fernando Collor e participou da cobertura do naufrágio do Bateau Mouche, no Rio. Em 1996, Renato trocou as viagens pelo mundo por um endereço fixo no Bom Dia Brasil. Como apresentador e editor-chefe, mudou a cara do jornalismo matinal da emissora, consolidando-se como uma das vozes mais respeitadas do país.
O legado de Renato Machado transcende sua trajetória individual: ele representa uma era de ouro do telejornalismo brasileiro, em que a precisão da informação e a elegância da comunicação andavam juntas. Sua morte, aos 83 anos, deixa uma lacuna no jornalismo nacional, mas seu exemplo de rigor, criatividade e compromisso com a verdade continuará inspirando gerações de profissionais.
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