O deputado estadual Joãozinho Pereira (PSDB-AL) utilizou a tribuna da Assembleia Legislativa de Alagoas para denunciar o abandono de um trecho crítico da BR-101, rodovia federal que corta o estado, e acusou o ex-ministro dos Transportes Renan Filho (MDB) e o governador Paulo Dantas (MDB) de promoverem uma suposta perseguição judicial contra sua pessoa. A declaração foi feita durante sessão ordinária na última terça-feira, 15 de outubro, e repercutiu nos bastidores políticos alagoanos, evidenciando o acirramento das disputas entre o Legislativo e o Executivo estadual.
De acordo com Pereira, as obras de duplicação e recuperação do trecho entre os municípios de União dos Palmares e São Luís do Quitunde — que somam aproximadamente 45 quilômetros — estão paralisadas há mais de seis meses, apesar de contratos firmados com a Construtora Queiroz Galvão e recursos federais já liberados. O parlamentar afirmou que, em vistoria realizada no último fim de semana, constatou máquinas abandonadas, erosão em taludes e buracos que colocam em risco a segurança de motoristas e moradores da região. “A BR-101 é a espinha dorsal da economia alagoana, e o que vemos é descaso com a vida das pessoas e com o desenvolvimento do estado”, declarou o deputado, que também é presidente da Comissão de Transporte da Assembleia.
Acusações de perseguição judicial e contexto político
O deputado associou a paralisação das obras a uma suposta retaliação judicial movida por Renan Filho e Paulo Dantas. Segundo Pereira, ambos estariam utilizando o aparato do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ-AL) para dificultar sua atuação política, após ele ter se posicionado contra projetos de interesse do grupo governista. “Eles querem me calar, mas não vão conseguir. O povo alagoano precisa saber que há perseguição contra quem denuncia a má gestão”, afirmou. A acusação ocorre em meio a um cenário de tensão entre os poderes no estado, agravado pela proximidade das eleições municipais de 2024 e pela disputa pelo controle do diretório estadual do MDB.
O governo estadual, por meio da Secretaria de Infraestrutura, negou as acusações e afirmou que as obras na BR-101 estão dentro do cronograma, com previsão de conclusão para o primeiro semestre de 2025. Em nota, a pasta informou que “a paralisação pontual em alguns trechos se deve a questões técnicas e climáticas, e não a motivações políticas”. Já Renan Filho, que atualmente ocupa o cargo de ministro dos Transportes no governo federal, não se manifestou diretamente sobre o caso, mas aliados próximos classificaram a denúncia como “infundada e eleitoreira”.
Impactos econômicos e sociais da paralisação
A BR-101 é a principal via de escoamento da produção agrícola e industrial de Alagoas, conectando o estado a mercados do Nordeste e do Sudeste. A paralisação das obras no trecho denunciado por Pereira afeta diretamente o transporte de cana-de-açúcar, grãos e produtos têxteis, além de comprometer o turismo na região das praias do Litoral Norte. Segundo dados da Federação das Indústrias do Estado de Alagoas (FIEA), a cada mês de atraso na conclusão da duplicação, o estado perde cerca de R$ 12 milhões em produtividade e logística. Moradores de comunidades rurais próximas ao trecho, como Povoado Jenipapo e Distrito de Botafogo, relataram aumento no tempo de deslocamento para hospitais e escolas, além de riscos de acidentes devido à falta de sinalização e ao asfalto deteriorado.
O caso também expõe fragilidades na fiscalização de obras federais em Alagoas. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), responsável pela BR-101, informou que realiza vistorias periódicas, mas não comentou especificamente sobre o trecho apontado pelo deputado. A Controladoria-Geral da União (CGU) em Alagoas abriu um procedimento para apurar possíveis irregularidades nos contratos, mas ainda não há prazo para conclusão.
Enquanto isso, a Assembleia Legislativa deve instalar uma comissão externa para acompanhar o andamento das obras e investigar as denúncias de perseguição. O deputado Joãozinho Pereira prometeu protocolar representação no Ministério Público Federal (MPF) e no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) contra Renan Filho e Paulo Dantas. A crise na BR-101, portanto, transcende o problema viário e se consolida como mais um capítulo da complexa trama política alagoana, onde interesses partidários e judiciais se entrelaçam em meio à disputa pelo poder.
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