O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou o bloqueio de bens do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, até o valor de R$ 119,2 milhões, após pedido da Polícia Federal. A suspeita é de que Valdemar, que não tem mandato, controlava a indicação de emendas parlamentares dentro da Câmara dos Deputados, com a ajuda de três servidores da Casa. A base da investigação são diálogos encontrados no celular de uma ex-servidora da Câmara, nos quais o presidente do PL aparece decidindo valores, escolhendo municípios e trocando destinos de emendas.
Em uma das mensagens, um assessor escreve: “Marquei com o Valdemar amanhã 10:30. Acho que ele vai jogar no turismo os 24. Pode ser?” Os “24” são R$ 24 milhões em emendas parlamentares, segundo a PF. Por lei, apenas parlamentares podem indicar emendas; Valdemar é ex-deputado e não tem prerrogativa para destinar recursos do orçamento.
Origem da investigação
A investigação é um desdobramento da Operação Transparência, deflagrada em dezembro de 2025. Na ocasião, a PF apreendeu o celular de Mariângela Fialek, conhecida como Tuca, apontada como peça-chave na distribuição das emendas do chamado “orçamento secreto”. Mariângela é ex-assessora do deputado federal e ex-presidente da Câmara dos Deputados Arthur Lira (PP-AL). Conhecida como Tuca, ela trabalhou no gabinete de Lira entre março de 2021 e meados de 2025, quando passou a atuar na liderança do Progressistas (PP) na Casa. Em dezembro de 2025, ela tinha remuneração bruta de R$ 23,7 mil em um cargo de natureza especial no partido. Foi nesse celular que os diálogos apareceram.
As conversas envolvem três servidores da Câmara: a própria Mariângela Fialek, chamada de “Tuca”; Nara Benedetti Nicolau Brum, lotada na liderança do PL; e Garigham Amarante Pinto, advogado com cargo especial na mesma liderança. Em uma das trocas de mensagens, Fialek pergunta a Nara: “Vc tem a planilha Codevasf.? Passou pra ele?” A resposta de Nara faz referência direta ao presidente do PL: “ok. As do valdemar já estamos terminando de cadastrar”. Para os investigadores, Nara era quem viabilizava tecnicamente as indicações: encaminhava planilhas, explicava limites regimentais e pedia ajustes. Nas mensagens dela, as indicações aparecem marcadas como “do Valdemar” ou “do VCN” — abreviação que, segundo a investigação, se refere de forma consistente a Valdemar.
Além do bloqueio, Dino mandou suspender, imediatamente, todos os pagamentos das emendas sob suspeita. São pelo menos 21 emendas, empenhadas ou pagas, num total de R$ 119.216.703,15 — o valor que a PF calcula ter sido desviado. O caso expõe a fragilidade dos mecanismos de controle do orçamento público e levanta questionamentos sobre a influência de figuras políticas sem mandato na destinação de recursos federais, em um contexto de crescente tensão entre os Poderes e de debates sobre a transparência das emendas parlamentares.
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