Em uma ação coordenada que reúne os principais representantes do setor produtivo dos dois países, a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Amcham (Câmara Americana de Comércio para o Brasil) e a U.S. Chamber of Commerce (Câmara de Comércio dos Estados Unidos) enviaram uma carta conjunta às autoridades brasileiras e americanas propondo uma nova rodada de negociações para evitar a aplicação de tarifas adicionais de 25% sobre a exportação de produtos brasileiros. O documento, que busca fortalecer a relação comercial estratégica entre os países, foi direcionado ao ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Elias Rosa; ao ministro das Relações Exteriores, embaixador Mauro Vieira; ao representante de Comércio dos Estados Unidos, embaixador Jamieson Greer; e ao secretário de Estado americano, Marco Rubio. A iniciativa ocorre em um momento de intensificação do diálogo bilateral, após a reunião entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, em maio, durante a investigação no âmbito da Seção 301 da legislação americana.
A proposta do setor privado divide as negociações em duas fases: uma com ações de curto prazo e outra com medidas de longo prazo. Como prioridade imediata, as entidades pedem uma solução para a investigação sobre a Seção 301 que evite a aplicação de tarifas adicionais sobre determinados produtos brasileiros. O prazo para um acordo é curto — termina em 9 dias, conforme alerta da indústria brasileira, que calcula que 4,1 mil produtos podem ser atingidos pelo novo tarifaço. A indústria brasileira, que já enfrenta desafios de competitividade, vê na medida uma ameaça direta a setores como café, mel e pescado, que tentam escapar das novas tarifas em audiências nos EUA.
Panorama político e econômico
O governo brasileiro, por sua vez, optou por uma postura de observação nas audiências nos EUA sobre o tarifaço, mantendo a aposta em negociações diretas. Enquanto isso, aliados alertam o senador Flávio Bolsonaro sobre os riscos de um tom político em sua participação nas audiências, o que poderia complicar ainda mais o cenário. A carta conjunta das entidades empresariais surge como uma tentativa de desviar o foco das disputas políticas e concentrar os esforços em uma agenda técnica e comercial que beneficie ambos os lados.
No curto prazo, as entidades sugerem que os esforços sejam concentrados em temas de alto impacto, como maior acesso a mercados para determinados produtos, incluindo insumos industriais, bens de capital e produtos voltados à segurança energética, ao desenvolvimento de data centers e à infraestrutura de inteligência artificial. Além disso, propõem mais cooperação regulatória para facilitar o acesso a mercados nos setores automotivo, farmacêutico, de saúde animal e de dispositivos médicos. Outro ponto crucial é o apoio à extensão de longo prazo da moratória da Organização Mundial do Comércio (OMC) sobre a isenção de imposto de importação para transmissões eletrônicas, uma medida que impacta diretamente o comércio digital entre os países.
Medidas de longo prazo e cooperação estratégica
Para o longo prazo, a carta propõe mais agilidade no exame de patentes e redução do estoque de pedidos de patente no Brasil, especialmente nos setores de saúde e biofarmacêutico, além de fortalecer o combate à pirataria e à contrafação. As entidades também defendem o avanço em uma cooperação acerca de minerais críticos, com foco em mapeamento geológico conjunto, pesquisa e desenvolvimento, investimentos para processamento e agregação de valor, assim como desenvolvimento de cadeias bilaterais de fornecimento seguras e resilientes. Por fim, pedem a implementação integral do Protocolo Anticorrupção do Acordo de Cooperação Econômica e Comercial (ATEC), um instrumento que pode aumentar a confiança mútua e reduzir riscos para investimentos.
A mobilização do setor produtivo reflete a preocupação com o impacto de um tarifaço que, segundo a indústria brasileira, pode atingir 4,1 mil produtos e comprometer a relação comercial que movimenta bilhões de dólares anualmente. Enquanto o governo brasileiro aposta em negociações diretas e evita confrontos, as entidades empresariais buscam construir uma ponte que evite o pior cenário. A proposta de agenda em duas etapas é vista como uma tentativa de transformar a crise em oportunidade, aprofundando a integração econômica entre Brasil e Estados Unidos em setores estratégicos como energia, tecnologia e saúde.
Fonte: ver noticia original

