Planalto minimiza impacto imediato da classificação de PCC e CV como terroristas pelos EUA, mas admite riscos econômicos

O governo brasileiro avalia que a decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, anunciada pela gestão de Donald Trump na última quinta-feira (28), não deve ter efeitos imediatos no curto prazo. A medida, formalizada nesta sexta-feira (5), gerou intensa movimentação diplomática entre Brasília e Washington, mas interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reconhecem que reverter a decisão é improvável no momento. Enquanto isso, especialistas alertam para riscos econômicos e operacionais, incluindo possíveis sanções a instituições financeiras brasileiras e dificuldades no compartilhamento de informações entre a Polícia Federal (PF) e o FBI.

Desde que a classificação foi anunciada, o governo brasileiro tem mantido conversas no nível diplomático com os americanos. Integrantes da embaixada dos Estados Unidos no Brasil afirmam, sob reserva, que o tema já vinha sendo discutido internamente no Departamento de Estado há cerca de um ano, principalmente entre assessores do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, mais alinhados à ala ideológica da Casa Branca. Nos bastidores, o governo Lula já atuava para tentar impedir que os Estados Unidos adotassem a medida, temendo que a nova classificação pudesse abrir margem para ações mais duras, incluindo, em um cenário extremo, operações militares em território brasileiro, como já ocorreu em outros países.

Riscos econômicos e impacto na cooperação policial

Auxiliares de Lula não acreditam, neste momento, em operações militares americanas em solo brasileiro, mas reconhecem que as principais consequências serão econômicas. O pesquisador Feliciano Guimarães, diretor acadêmico do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), afirma que há risco real de sanções a instituições financeiras e a companhias instaladas no Brasil. “Bancos brasileiros que têm ativos no mercado americano, empresas brasileiras que tenham ações no mercado americano, inclusive a Petrobras. Se investigações brasileiras, como Carbono Oculto [operação da Polícia Federal que investiga práticas de lavagem de dinheiro conduzidas pelo crime organizado], ou outras investigações feitas pelos Estados Unidos identificarem instituições financeiras brasileiras que, por alguma forma, passaram recurso do PCC ou do CV, podem sofrer sanções diretas”, explicou.

Guimarães acredita que a designação das facções como organizações terroristas também vai dificultar o compartilhamento de informações entre Brasil e EUA. “Antes disso, numa negociação entre Lula e Trump, já tinha feito uma outra força-tarefa entre PF e FBI [a Polícia Federal americana] para compartilhamento de informações entre os dois lados para combater o crime organizado. Sem o lado americano, fica mais difícil combatermos o PCC e o CV”, completou.

Panorama político e reações

A decisão de Trump reacende o debate sobre soberania nacional e a relação entre os dois países. Enquanto o governo Lula busca minimizar os efeitos imediatos, setores da oposição, como o governador de Alagoas, defendem classificar PCC e CV como terroristas, divergindo da postura federal. A medida também fortalece a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro, que vê na classificação um argumento para endurecer o combate ao crime organizado. Por outro lado, críticos apontam que a ação americana representa uma tentativa de impor soberania limitada ao Brasil, gerando preocupações sobre a ingerência externa em assuntos internos. O governo Trump, que já intensificou interferências nas eleições brasileiras, aposta na rejeição interna ao republicano para manter o Planalto em alerta.

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