62 anos de ditadura militar: JHC e seu histórico de censura à imprensa

Para que esteja tudo alinhado, JHC vem dobrando a aposta contra a imprensa alagoana e a favor da censura — matéria faz parte do livro Estado de Marketing

Para a política de JHC, não adianta falar uma língua no digital e outra na mídia tradicional. Ele parece executar de forma específica, semelhante à “doutrina do porrete na mão” (Big Stick Policy): fale manso e carregue um grande porrete. Não teme usá-lo com a imprensa quando necessário para alinhar o discurso junto às suas mídias digitais. Para o Estado de Marketing proposto por figuras como JHC funcionar, existe esse dinamismo na comunicação on e off para manter o discurso alinhado nas esferas da opinião pública.

A relação tem diversas camadas que envolvem aspectos personalíssimos da figura política de JHC, como o recorrente círculo fechado para entrevistas. Diferente do JHC de Recife, João Campos, o João Henrique Caldas evita ao máximo o contato direto com a imprensa. A jornalista Emanuelle Vanderlei comenta que, enquanto o contato com a equipe de comunicação é fluído, o acesso direto ao gestor é restrito: “A relação com a imprensa por parte da assessoria é muito boa (…) a figura do prefeito é uma figura mais difícil de a gente acessar”, e que as coletivas são “sempre muito rápidas e difíceis”. O jornalista Cadu Amaral traz uma ótica mais específica: “A relação dele com a imprensa alagoana é uma relação de contrato comercial, depende muito de anúncio público.” Segundo ele, essa dependência cria um silenciamento seletivo“Você não vai morder a mão que te alimenta (…) como é preciso da verba pública, certos assuntos não se fala, não se toca.” Cadu afirma que JHC “falha muito nos acordos” comerciais, mas os veículos evitam reclamar publicamente para não perderem pagamentos atrasados ou contratos futuros.

Marcos Tchola, repórter de política e economia da Gazeta e âncora do Jornal Mix, oferece ainda uma análise sobre como essa relação foi se transformando ao longo dos mandatos: no início havia um alinhamento impulsionado por repasses financeiros e uma imagem positiva, mas o cenário foi mudando conforme falhas na gestão e escândalos foram emergindo, gerando atritos crescentes entre o prefeito e parte da imprensa alagoana.

O ponto mais alto dessa tensão se dá no fim de 2025 e início de 2026. Mas antes de chegar ao Master, vale registrar um histórico anterior. Quando exercia mandato de deputado federal, em 2016, JHC foi alvo de acusações de enriquecimento ilícito, denúncias que não resultaram em condenação judicial. O jornalista Chico Góis questionou publicamente como o parlamentar teria conseguido dobrar seu patrimônio em seis anos, saltando de R$ 1,5 milhão para R$ 3 milhões, com base em declarações à Justiça Eleitoral. Em vez de prestar esclarecimentos, JHC moveu ação judicial contra o jornalista, que registrou os detalhes em sua obra Os ben$ que os políticos fazem. Entre as questões que, segundo Góis, jamais receberam resposta, destaca-se o fato de JHC, ainda estudante, já constar nas declarações eleitorais com patrimônio superior ao do próprio pai, João Caldas, ex-deputado condenado por improbidade administrativa no escândalo da “Máfia das Ambulâncias”.

Para a Professora Doutora Laura Pimenta da UFAL, especialista em comunicação e opinião pública, JHC baseia sua relação com a imprensa no controle rígido de narrativa, na hostilidade contra críticos e no uso massivo de recursos públicos para marketing. Ela explica que ele “criminaliza, processa influenciadores que são contrários, apenas a mídia independente faz denúncias.” Na prática, o prefeito utilizaria a imprensa apenas quando lhe convém, priorizando “páginas específicas com quem ele vai se sair melhor.” Durante a campanha, adotou a estratégia de não participar de debates, operando para “gerir a imagem dele a qualquer custo.” Conclui-se que o cercadinho de JHC vai além das mídias digitais: ele mantém uma relação comercial ambígua e tóxica com a imprensa alagoana.

Dois casos antecederam o Master como motivos de ira de JHC contra a imprensa: a indenização da Braskem e o investimento de R$ 8 milhões na escola de samba Beija-Flor. Desde pelo menos março de 2024, o prefeito tem recorrido ao Judiciário para questionar, remover ou intimidar jornalistas e veículos que publicam críticas, predominantemente via pedidos liminares de remoção de conteúdo combinados com ameaças de multa diária. Estratégia que o Sindjornal e a FENAJ classificaram publicamente como lawfare, nas palavras de ambas as entidades.

Em 20 de julho de 2023, JHC assinou acordo com a Braskem garantindo ao município indenização de R$ 1,7 bilhão, homologado judicialmente. Somados outros acordos com o MP e a Defensoria, o valor total chegou a R$ 2,6 bilhões. O acordo foi amplamente criticado: a cláusula principal conferia “plena, irrestrita, irrevogável e irretratável quitação à Braskem referente a qualquer dano relacionado à extração de sal-gema” e transferia à empresa a propriedade dos terrenos desocupados. Em 10 de dezembro de 2023, a Mina 18 da Braskem, no bairro do Mutange, rompeu, causando danos ambientais incalculáveis. A vereadora Teca Nelma afirmou que o acordo foi feito “às escuras” e cobrou sua revogação. O deputado federal Rafael Brito denunciou na Câmara que o acordo “perdoa os pecados da Braskem” e a torna “proprietária da área desocupada e uma grande beneficiária do crime ambiental que cometeu.”

O relatório final da CPI da Braskem concluiu que o acordo “beneficiou especialmente a Braskem em detrimento dos atingidos” e apontou oito pessoas para indiciamento. Em 2 de janeiro de 2025, JHC nomeou Fernando Tourinho Lisboa Souza, filho do então presidente do TJ-AL, para cargo de comissão na Prefeitura, dias após o desembargador deferir decisão favorável a JHC em plantão judiciário. A advogada Adriana Mangabeira Wanderley, representante de vítimas da Braskem, protocolou Reclamação Disciplinar no CNJ apontando, em suas palavras, suspeita de troca de favores. Ainda em 2025, JHC ingressou com ação contra a própria advogada, que o acusou de ser “cúmplice do maior crime ambiental do mundo.” O TJ-AL rejeitou os pedidos mais amplos: a desembargadora Elisabeth Carvalho limitou a decisão à exclusão da publicação específica, reconhecendo que suspender o perfil e proibir manifestações futuras configuraria censura prévia vedada pela Constituição.

Em maio de 2023, a Prefeitura formalizou contrato com a escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, via Secretaria de Turismo (Semtur), no valor de R$ 8 milhões para incentivar o projeto de carnaval de 2024, com Maceió como tema do samba-enredo. JHC e Arthur Lira desfilaram juntos na Sapucaí em fevereiro de 2024. A Beija-Flor ficou em 8º lugar entre 12 participantes. O orçamento total aprovado para a Semtur naquele ano era de R$ 13 milhões, e o patrocínio consumiu aproximadamente 61,5% de toda a previsão orçamentária anual da secretaria. A engenharia administrativa do repasse é reveladora: em quatro dias, a prefeitura aprovou uma lei com teto de R$ 1 milhão para eventos, inseriu uma brecha de “relevante interesse público” e a acionou imediatamente para liberar R$ 8 milhões à Beija-Flor, dispensando chamamento público sob justificativa de “singularidade do objeto.”

O contraste orçamentário desmonta qualquer narrativa de fomento cultural. Com recursos próprios, a prefeitura distribuiu R$ 250 por artista em editais locais, repassou R$ 10 mil a cada escola de samba da cidade e destinou R$ 240 mil anuais ao único contrato de educação cultural contínua identificado. Os R$ 8 milhões da Beija-Flor superam em 133 vezes o total investido nas seis escolas de samba locais, equivalem a 320% de todo o pacote próprio de editais da Fundação Municipal de Cultura e financiariam 33 anos do contrato com a ASFOPAL. O capital enviado ao Rio gerou salários e circulação econômica na Baixada Fluminense, não na base produtiva alagoana. O desfile durou 70 minutos. Não houve pesquisa mostrando impacto real na economia local. O fomento estrutural da cultura em Maceió sobrevive quase exclusivamente de transferências federais. Vale notar que Maceió não participou do segundo ciclo da Aldir Blanc, que exigia contrapartida de investimentos locais, sem que a gestão apresentasse justificativa pública para a ausência.

Foi nesse cenário que Cadu Amaral foi processado por JHC após publicar vídeo questionando o patrocínio à Beija-Flor. Na mesma semana, dois historiadores foram identificados como alvos de processos semelhantes, sugerindo ação coordenada. O Sindjornal classificou expressamente o processo como lawfare: “utilizar o sistema jurídico como arma para perseguir e destruir opiniões contrárias via ações judiciais, com intimidações, censura e indenizações.” O historiador e jornalista Geraldo de Majella declarou: “Esse processo e nenhum outro mais irá me calar.” O caso chegou ao STF, onde o ministro Cristiano Zanin derrubou a liminar de remoção da matéria, reconhecendo “interesse jornalístico no relato, pois se refere à utilização de recursos da Prefeitura com eventos culturais fora de seu território.”


Maceió é Master

Era 18 de novembro de 2025 quando o Banco Central liquidou o Banco Master. A maior quebra da história do sistema financeiro brasileiro até então: 86 bilhões de reais em ativos e um rombo bilionário mascarado por operações fictícias. O controlador Daniel Vorcaro teve os bens bloqueados e foi preso enquanto tentava, segundo a PF, fugir do país. Maceió era central nessa teia de impacto: a gestão estava envolvida através do Iprev, que fez aporte de mais de R$ 100 milhões em letras sem FGC, expondo o valor ao risco de perda total, cenário projetado por especialistas à época e ainda sem reversão judicial confirmada até o fechamento deste livro. A consultoria Crédito e Mercado, contratada pelo Iprev para assessoria de investimentos, foi condenada por gestão temerária. O Ministério da Previdência informou que municípios envolvidos deverão utilizar recursos próprios para cobrir eventuais déficits previdenciários. O Jornal Extra revelou que o conselho do Iprev aprovou os aportes sem o quórum necessário.

O que parecia um desgaste curto e momentâneo para a gestão foi se alongando por todo o início de 2026, ano eleitoral, com novos desdobramentos que envolveram ministros, deputados, senadores e membros do TCU e do STF. A cada novo capítulo do caso Master, a gestão JHC avaliava que o desgaste respingava sob a imagem do prefeito. Em ano eleitoral, isso tem custo elevado.

Ainda em janeiro de 2026, JHC ingressou com ação contra a Jovem Pan News Alagoas após reportagem que o associou à Operação Fames 19 da Polícia Federal, sobre suposto desvio de R$ 26 milhões via ONG Econacional. A defesa do prefeito sustentou que “o simples fato de a Prefeitura de Maceió ter firmado contrato com a ONG Econacional não pode ser interpretado como envolvimento pessoal do chefe do Executivo no suposto esquema criminoso”. O magistrado rejeitou o pedido de remoção integral, preservando a liberdade de imprensa. No mesmo mês, múltiplas ações foram ajuizadas contra a Folha de Alagoas para retirar do ar matérias sobre os R$ 117 milhões do IPREV no Banco Master, com prazo de 24 horas e multa diária de R$ 1.000, além de proibição de novas postagens com o mesmo teor. Juristas classificaram as decisões como censura prévia, prática vedada pelo artigo 220 da Constituição Federal. JHC também ingressou com ação contra a jornalista Bleine Oliveira após ela comentar o caso em redes sociais. A defesa chegou a questionar sua qualificação profissional. O juiz deferiu liminar suspendendo o conteúdo e proibindo novas postagens em qualquer plataforma. Em nota, Bleine declarou: “Eu não inventei, não denunciei, tão somente comentei o fato de o prefeito colocar quantidade expressiva do dinheiro público num banco sem lastro (…) ser censurada traz pra dentro de nossa alma o gosto amargo da violência.”

Em fevereiro, JHC moveu ação contra o Jornal Tribuna do Sertão, de Palmeira dos Índios, que publicara reportagem sobre os investimentos do IPREV com base em dados já tornados públicos por outros veículos. A ANJ protestou em 12 de fevereiro, reiterando que a reportagem era baseada em documentos de interesse público. Em 20 de fevereiro, jornalistas declararam que iriam protocolar denúncias no CNJ contra magistrados que assinaram as ordens de remoção, apontando possível atuação conjunta com a gestão municipal. Em março, JHC ingressou com ação contra o coletivo Bancada Negra de Maceió após publicações questionando os investimentos do IPREV, solicitando a identificação dos administradores da página, a retirada das publicações e indenização de R$ 10 mil. Alycia Oliveira, integrante do coletivo, respondeu: “Se a intenção era nos intimidar, a resposta é simples: não vão nos calar. Quando o poder tenta fazer isso, é porque a verdade incomoda.” No fim de março de 2026, a Jovem Pan de Alagoas foi proibida judicialmente de publicar matérias que citam o nome do prefeito no caso Master, revertendo o resultado anterior em primeira instância.

O padrão é consistente: pedidos de remoção em 24 horas, multas diárias e proibição de novas publicações com “o mesmo teor”, termo juridicamente impreciso que pode abranger qualquer cobertura futura sobre o assunto. Para veículos de pequeno e médio porte, como a Tribuna do Sertão, o custo de enfrentar essas ações pode ser insuportável, levando à autocensura. O caso Banco Master gerou pelo menos sete ações judiciais identificadas, contra cinco alvos distintos, em aproximadamente quatro meses.

Nos bastidores, foi noticiado que a ruptura de JHC com Lira e o bolsonarismo no começo de 2026 se deu principalmente porque Renan Calheiros tinha em mãos grande potencial de afetar Maceió via Senado no caso Master. JHC se alinhou a Lula, Renan Calheiros e Renan Filho no famoso acordão que resultaria em sua candidatura ao Senado. Até aqui, parece que JHC está seguindo os planos, sempre sem falar um A a respeito. O que só confirma como o caso Master parece tirar o sono do prefeito de Maceió em diversas camadas.

A chefe da Secom, Secretária Eliane Aquino, afirma que a relação com a imprensa é boa e saudável. Questionada sobre os episódios de aparente censura, comentou que os jornalistas e portais processados disseminavam notícias falsas e caluniosas à gestão. Sobre os atrasos de pagamentos, disse ver muito fogo amigo e que eventuais atrasos decorrem de burocracias normais da máquina pública, mas que jamais houve ou haverá calotes.

Olhando de longe, o caso Master serviu como revelador na análise das estratégias de controle da opinião pública dentro do Estado de Marketing proposto por figuras como JHC: quando as coisas saem dos trilhos, usa-se a robustez judiciária, o lawfare, nas palavras do Sindjornal e da FENAJ, para forçar o alinhamento discursivo. A política Big Stick que JHC parece ter importado durante seu intercâmbio norte-americano vai surtindo efeito: ele fala suavemente, pois carrega um grande porrete estatal nas mãos.

Não existe momento mais oportuno de analisar de perto as ações contra a liberdade de expressão conduzidas por uma figura politicamente eleita como neste 62 anos de instauração da ditadura militar brasileira de 1964. Mais do que nunca, o passado precisa revivido e debatido.

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