Nordeste lidera risco sísmico no Brasil: crosta fina e tensões geológicas explicam fenômeno

O Nordeste brasileiro é a região do país com maior propensão a terremotos, segundo geólogos e engenheiros de estruturas consultados pelo G1. A explicação está na espessura reduzida da crosta terrestre sob os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas, que varia entre 30 e 35 quilômetros — bem abaixo da média mundial, que ultrapassa 40 quilômetros e chega a 70 quilômetros no Himalaia. Esse adelgaçamento, originado no período Cretáceo (entre 136 milhões e 65 milhões de anos atrás), é resultado do estiramento da crosta durante a separação dos continentes africano e sul-americano, processo que formou o Oceano Atlântico.

A falha geológica de Samambaia, no Rio Grande do Norte, é a maior do Brasil e exemplifica essa fragilidade estrutural. O engenheiro de estruturas Marcelo Bianco, professor da Universidade de São Paulo (USP), que estudou a crosta nordestina durante mestrado e doutorado na Universidade de Weimar, na Alemanha, explica que o fenômeno é conhecido como “efeito de estiramento”. “É como um queijo derretido que, puxado, vai ficando mais fininho, mais ralo no meio”, compara Bianco, destacando que a região sofreu um processo de acomodação das placas tectônicas que deixou a crosta mais suscetível ao acúmulo de forças sísmicas.

Panorama geológico e impacto regional

O geofísico Aderson Farias do Nascimento, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), reforça que a Província Borborema — bloco rochoso que cobre boa parte do Nordeste — é uma área onde o acúmulo de tensões tectônicas ocorre com facilidade. “Em regiões assim, muitas vezes há o acúmulo, com facilidade, de forças que podem desencadear terremotos”, afirma Nascimento. Apesar de o Brasil estar no centro de uma placa tectônica, o que geralmente reduz a atividade sísmica, a particularidade nordestina cria um cenário de risco elevado, com abalos de baixa a média intensidade registrados com frequência, especialmente no Rio Grande do Norte e no Ceará.

Especialistas comparam o movimento das placas tectônicas a um grupo de pessoas amontoadas em um vagão de transporte público: quando uma se movimenta, as outras precisam se ajustar, gerando tensões constantes. No Nordeste, essa dinâmica é intensificada pela crosta fina, que funciona como uma casca de ovo trincada ou um casco de tartaruga — mais frágil e sujeita a rupturas. O impacto para a população inclui desde tremores imperceptíveis até eventos que causam danos estruturais em edificações, como já ocorreu em cidades como João Câmara (RN) e Sobral (CE), que registraram sismos de magnitude acima de 4 na escala Richter nas últimas décadas.

Em um contexto político e social, a vulnerabilidade sísmica do Nordeste contrasta com a falta de políticas públicas específicas para prevenção e monitoramento. Enquanto outras regiões do país, como o Sudeste e o Sul, investem em sistemas de alerta para desastres naturais — como enchentes e deslizamentos —, o Nordeste carece de uma rede sismológica robusta e de normas de construção adaptadas ao risco. A situação é agravada pela urbanização desordenada em áreas de falhas geológicas, como a de Samambaia, que corta municípios potiguares e paraibanos. A ausência de um plano nacional de mitigação de riscos sísmicos expõe a população a perigos que poderiam ser minimizados com investimentos em ciência e infraestrutura.

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