Operação policial contra produtora de filme sobre Bolsonaro gera crise política em São Paulo

A operação da Polícia Civil realizada nesta segunda-feira (1º) que teve como alvo repartições da Prefeitura de São Paulo e a sede da produtora do filme “Dark Horse“, obra que aborda a facada contra Jair Bolsonaro (PL), gerou forte reação do prefeito Ricardo Nunes (MDB), aliado do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Nunes classificou a ação como motivada por “perseguição política”, enquanto a oposição vê na medida um possível excesso do Executivo municipal contra a liberdade de expressão e a produção cultural.

A operação, que mobilizou agentes em diferentes pontos da capital paulista, cumpriu mandados de busca e apreensão em órgãos ligados à administração municipal e na sede da produtora responsável pelo longa-metragem. O filme “Dark Horse” retrata o episódio da facada sofrida por Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018, em Juiz de Fora (MG), e tem sido alvo de controvérsias políticas desde seu anúncio. A produtora, que não teve o nome divulgado oficialmente, nega irregularidades e afirma que a obra é baseada em fatos públicos e investigações oficiais.

Repercussão política e acusações de motivação eleitoral

O prefeito Ricardo Nunes, que busca a reeleição em 2026 e mantém aliança com o bolsonarismo, declarou à imprensa que a operação tem “nítido viés político” e que visa constranger aliados do ex-presidente. “Isso é uma perseguição. Não podemos aceitar que o Estado seja usado para atingir adversários políticos ou cercear a produção cultural”, afirmou Nunes. A fala do prefeito ecoa o discurso de setores da direita que enxergam na ação uma tentativa de desgastar a imagem de Bolsonaro e de seus apoiadores às vésperas das eleições.

Do outro lado, partidos de oposição e entidades de defesa da liberdade de expressão criticaram a operação, mas por razões distintas. Para o PSOL e o PT, a ação policial pode representar um abuso de poder do Executivo municipal, que teria utilizado a máquina pública para intimidar uma produtora independente. “O prefeito Nunes não pode usar a Polícia Civil para perseguir quem faz cinema crítico. Isso é censura disfarçada de investigação”, afirmou a deputada estadual Mônica Seixas (PSOL-SP). Já o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado de Nunes, evitou comentar o mérito da operação, mas defendeu a autonomia da Polícia Civil.

Impacto na produção cultural e no ambiente político

A ação policial ocorre em um momento de acirramento da polarização política no país, com a proximidade das eleições presidenciais e estaduais de 2026. O filme “Dark Horse”, que ainda está em fase de pós-produção, já havia gerado polêmica antes mesmo de seu lançamento, com críticas de bolsonaristas que o acusam de distorcer os fatos. A produtora, por sua vez, afirma que o longa é baseado em documentos oficiais, incluindo laudos periciais e depoimentos colhidos pela Polícia Federal.

Especialistas em direito constitucional ouvidos pela reportagem apontam que a operação pode configurar um precedente perigoso para a liberdade de expressão artística. “Se o Estado pode invadir uma produtora por causa do conteúdo de um filme, isso abre brecha para censura prévia. A investigação precisa ter lastro em indícios concretos de crime, não em desconforto político”, avaliou o advogado Carlos Alberto de Souza, professor de direito constitucional da USP. A Polícia Civil, em nota, informou que a operação faz parte de uma investigação sobre supostas irregularidades em contratos públicos, mas não detalhou a relação com a produtora.

Enquanto isso, o prefeito Ricardo Nunes convocou uma coletiva para esta terça-feira (2) para detalhar sua posição. A oposição já anunciou que vai protocolar um pedido de informações na Câmara Municipal para esclarecer os critérios da operação. O caso promete se tornar mais um capítulo na disputa política entre o governo municipal e setores da sociedade civil, em meio a um ano eleitoral marcado por tensões e acusações mútuas.

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