O pré-candidato ao Senado Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez acenos públicos a Michelle Bolsonaro nesta segunda-feira (26) para tentar conter o desgaste com o eleitorado feminino, após um racha exposto pela ex-primeira-dama no fim de semana. Em postagens nas redes sociais, Flávio elogiou a madrasta e pediu união no grupo político, mas, ao mesmo tempo, rebateu uma postagem dela sobre a polêmica ‘festa das astronautas’, episódio que envolveu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e que Michelle usou para criticar abertamente os filhos do ex-presidente. A crise expõe as profundas divisões no clã Bolsonaro, que se intensificam em meio às disputas por palanques estaduais e à necessidade de consolidar a base para as eleições de 2026.
O rompimento público de Michelle com Flávio, Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP) foi explicitado no último sábado (24), quando a ex-primeira-dama usou suas redes sociais para criticar a postura dos enteados em relação à ‘festa das astronautas’, evento ocorrido em 2023 que gerou controvérsia e que Michelle associou a uma tentativa de desqualificar sua imagem. Na ocasião, ela afirmou que os filhos de Jair Bolsonaro estariam ‘trabalhando contra a unidade da família’ e que não aceitaria ‘ser usada como moeda de troca em disputas políticas’. A declaração pegou o grupo de surpresa e acendeu um alerta sobre a fragilidade da coesão interna, especialmente em um momento em que o PL busca ampliar sua base de apoio entre as mulheres, segmento no qual Michelle tem forte influência.
O aceno de Flávio e a tentativa de controle de danos
Em resposta, Flávio Bolsonaro publicou uma série de mensagens na manhã desta segunda-feira, nas quais chamou Michelle de ‘parceira leal’ e ‘exemplo de força e dedicação’. Ele afirmou que ‘a família precisa estar unida para enfrentar os desafios que vêm pela frente’ e que ‘qualquer divergência interna deve ser resolvida com diálogo, não com exposição pública’. No entanto, em um tom que muitos analistas interpretaram como uma tentativa de não ceder completamente, Flávio também rebateu a postagem de Michelle sobre a ‘festa das astronautas’, dizendo que ‘não cabe revisitar episódios que já foram esclarecidos’ e que ‘a prioridade agora é o projeto político de 2026’. A dupla mensagem revela a dificuldade de Flávio em equilibrar a necessidade de apaziguar a madrasta com a pressão dos irmãos, que veem em Michelle uma ameaça à influência deles no entorno do ex-presidente.
O episódio ocorre em um contexto de disputas por palanques estaduais, que têm sido um dos principais focos de tensão dentro do clã Bolsonaro. Enquanto Flávio busca consolidar sua pré-candidatura ao Senado no Rio de Janeiro, Michelle tem sido cortejada por partidos aliados para ser vice-presidente na chapa de Jair Bolsonaro, o que a colocaria em uma posição de destaque nacional. Os filhos do ex-presidente, por sua vez, resistem a essa possibilidade, temendo que Michelle ganhe autonomia e possa, no futuro, desafiar a liderança deles no grupo. A briga pública expõe, portanto, não apenas uma crise familiar, mas também uma disputa pelo controle do legado político de Jair Bolsonaro, que, aos 71 anos, continua sendo a principal figura da direita brasileira, mas cuja saúde e capacidade de liderança têm sido questionadas nos bastidores.
Impacto no eleitorado feminino e no cenário político
O racha no clã Bolsonaro tem impacto direto na estratégia eleitoral do PL para 2026. Pesquisas internas do partido, obtidas pela reportagem, indicam que Michelle Bolsonaro é a figura com maior potencial de atrair o voto feminino, segmento no qual Jair Bolsonaro tem rejeição elevada, especialmente após episódios como a ‘festa das astronautas’ e declarações polêmicas sobre mulheres. A ex-primeira-dama, que construiu uma imagem de moderada e de defesa dos valores cristãos, é vista como um ativo eleitoral crucial para ampliar a base do partido, que hoje depende majoritariamente do eleitorado masculino e de regiões mais conservadoras. Com a crise, o PL corre o risco de perder esse capital político, já que Michelle pode optar por se distanciar do grupo ou até mesmo buscar uma candidatura própria, como já foi cogitado em conversas reservadas.
Além disso, a disputa expõe a fragilidade do projeto de poder da família Bolsonaro, que, desde o fim do governo em 2022, tenta se reorganizar sem sucesso. Enquanto Flávio, Carlos e Eduardo atuam como ‘guardiões’ do legado do pai, Michelle representa uma força externa que, embora aliada, não se submete à hierarquia imposta pelos filhos. A situação é agravada pela ausência de Jair Bolsonaro como mediador eficaz, já que o ex-presidente, inelegível até 2030, tem se mostrado hesitante em intervir, ora apoiando Michelle, ora os filhos, em um movimento que muitos interpretam como uma tentativa de não desagradar a nenhum dos lados. Para analistas políticos, o racha pode beneficiar adversários, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que têm observado a crise com atenção e podem explorar a divisão para atrair eleitores descontentes com o bolsonarismo.
Enquanto isso, a base bolsonarista nas redes sociais se divide entre apoiadores de Michelle, que a veem como uma vítima da ‘ingerência dos filhos’, e defensores de Flávio, que acusam a ex-primeira-dama de ‘tentar roubar a cena’ e de ‘não ter legitimidade’ para falar em nome da família. A polarização interna, que antes era um trunfo do grupo para mobilizar a militância, agora se torna um risco, já que pode levar a uma fragmentação do eleitorado. Para o PL, a prioridade imediata é conter a crise e evitar que o racha se transforme em uma ruptura definitiva, o que exigirá de Flávio, Carlos e Eduardo uma habilidade política que, até o momento, não demonstraram ter. A ‘festa das astronautas’, que Michelle usou como estopim para o rompimento, pode, assim, se tornar um símbolo da crise de identidade de um grupo que, sem a figura central de Jair Bolsonaro, luta para se manter unido.
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